Março é um mês determinante na história recente do Mali e para Amadou Touré.
A 22 de Março, intervenções repressivas contra manifestantes na capital do Mali, Bamako, acabariam por provocar cerca de 300 mortos. Corria o ano de 1991. Quatro dias depois, um golpe militar, liderado por Amadou Touré, depunha o presidente Moussa Traoré.
A 22 de Março, agora em 2012, um golpe militar depôs Amadou Touré.
Em comum entre os dois acontecimentos históricos há mais para além da data: então, como agora, o Norte do Mali era fustigado por rebeldes tuaregues, insatisfeitos com as condições de vida que levavam e dizendo-se discriminados pelo governo, no Sul.
Na década de 1990, o golpe liderado pelo General Touré abriu caminho a um governo eleito que negociou um acordo de paz com os rebeldes tuaregues. O próprio Touré candidatou-se à presidência da República, e foi eleito, em 2002. Agora, a apenas um mês de novas eleições presidenciais em que iria abandonar o cargo por ter completado o máximo de dois mandatos, Amadou Touré é apeado do poder por não ter conseguido lidar apropriadamente com nova revolta dos tuaregues. Sem um exército capaz de se contrapor militarmente aos revoltosos, sem solução política para o conflito, enfrentando descontentamento popular, Touré é vítima de um golpe de Estado.
Como ele fez, os militares revoltosos prometem entregar o poder em breve a civis. Desta vez, no entanto, só o tempo dirá se a promessa será cumprida.
Pelo menos quatro pessoas morreram nesse golpe de Estado, anunciado por militares que fecharam as fronteiras e decretaram recolher obrigatório nocturno.
Touré, de 63 anos, permanece em Bamaco, sendo provável que se encontre num quartel com os Boinas Vermelhas da sua guarda presidencial.
Tudo começou na tarde de quarta-feira, durante uma visita do Ministro da Defesa a quarteis, quando alguns soldados se amotinaram para exigir, segundo eles, mais fundos para a guerra contra os rebeldes do Norte.
O motim na cidade de Kita (a 15 km da capital), passou a Houlouba, onde está a presidência, depois à capital e a Gao (nordeste), onde está um comando anti-rebelião do exército.
Em dois dias, houve 40 feridos, entre eles "três ou quatro civis", a maioria atingidos por balas perdidas, segundo a Cruz Vermelha.
Na quinta-feira, às 4h locais, soldados uniformizados apareceram na televisão estatal, onde anunciaram o "fim do regime incompetente" do presidente Touré, suspenderam a Constituição, decretaram a dissolução de "todas as instituições", além de um toque de recolher por tempo indeterminado. As fronteiras do Mali foram fechadas "até nova ordem" e os funcionários convidados a retomar o trabalho na terça-feira, 27 de Março, sob pena de ser considerado "abandono de posição".
O Capitão Amadou Sanogo, é o líder dos revoltosos e chefe do agora criado Comité Nacional para a Recuperação da Democracia e do Restabelecimento do Estado.
O Partido Solidariedade Africana pela Democracia e Independência (Sadi), único da oposição representado na Assembleia Nacional, felicitou os golpistas e o seu presidente, Oumar Mariko, declarou estar pronto para fazer parte de um governo de união nacional.
A nível internacional, no entanto, a condenação foi unânime.
O anúncio da tomada do poder pelos militares no Mali provocou uma onda de condenações no exterior por parte da União Africana, que suspendeu o país da organização, da Comunidade Económica de Estados da África Ocidental, dos países vizinhos, dos Estados Unidos, da União Europeia, da ONU, e da Organização da Conferência Islâmica.
Como a França, antiga potência colonial, o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento, suspenderam toda a ajuda financeira ao país.
Em Paris, onde se encontra em visita oficial, o Ministro das Relações Exteriores angolano, Georges Chicoti, condenou de forma veemente o golpe. O governante considerou que, “hoje, em África, já está consagrado que, em princípio, não reconhecemos os regimes saídos de golpes de Estado. O problema é que há algumas correntes que tentaram contrariar esta perspetiva, que defendiam que é possível mudar-se regimes pela força. E isso tem criado alguma confusão”.
O ministro queniano das Relações Exteriores, Moses Wetangula, que se encontrava em Bamako para uma reunião da União Africana sobre segurança, ficou retido no país, por os aeroportos esterm fechados.
Numa análise da situação, no entanto, não se pode dizer que o golpe seja uma grande surpresa, visto que o descontentamento dos militares era público e expresso repetidamente ao longo dos últimos dois meses.
Aliás, já na edição de 18 de Fevereiro deste programa dedicámos um largo espaço a esse tema.
O que é facto é que há muito tempo que se sabia que a situação anárquica em que a Líbia caiu após o derrube do regime de Muhamar Kadaffi teria consequências perigosas, sobretudo porque não há controlo sobre as armas que o exército possuía.
A primeira evidência de que aquelas preocupações eram reais chegou do Mali, onde rebeldes tuaregues iniciaram uma revolta que tem por objectivo a criação de um Estado independente no Norte do país, a que chamam Azawad.
Estima-se que desde meados de Janeiro, quando começou a rebelião, haja mais de 200 mil pessoas afectadas.
Os conflitos no Norte do Mali, uma zona desértica, não são de agora. Desde o tempo colonial que os tuaregues combatem naquela região, logo no início do século XX contra as tropas francesas.
Depois da independência, em 1960, esta é a quarta vez que se registam confrontos. A última rebelião terminou apenas em 2008, mas os acordos alcançados acabaram por nunca ser cumpridos e os tuaregues voltaram a pegar em armas.
Agora, e aproveitando-se da situação em Bamako, onde os soldados estão ocupados a consolidar o poder, os rebeldes do Movimento Nacional de Libertação Azawad avançaram para Sul e tomaram várias cidades, sem enfrentar resistência.
De qualquer forma, a superioridade militar dos rebeldes liderados pelos tuaregues é inquestionável e é esse o principal motivo de insatisfação dos militares.
Anda esta semana a CEDEAO tinha apelado aos países vizinhos do Mali que apoiassem o exército com armamento para combater o Movimento Nacional de Libertação Azawad. A supremacia deste deriva directamente da situação na Líbia: em primeiro lugar porque os arsenais de armas estão sem controlo; em segundo porque os tuaregues combateram ao lado das forças de Kadaffi e agora regressam ao Mali sem trabalho, mas bem treinados no manuseamento das armas; em terceiro porque o próprio Kadaffi era um factor de estabilidade, mediando os conflitos e controlando as acções dos tuaregues.
A isto acresce a influência da al-Qaeda na região – embora os rebeldes garantam que não, há testemunhos de que entre os guerrilheiros estão homens de barbas compridas e com roupas ao estilo afegão.
Este conjunto de circunstâncias fez com que o avanço dos rebeldes tenha sido praticamente um passeio. No início dos ataques o exército maliano estava mal equipado e rapidamente se viu sem munições. Já os tuaregues possuíam armas pesadas instaladas em veículos todo-o-terreno e comunicações via satélite, pelo que o resultado foi um massacre.
Azawad é o nome que escolheram para a região onde se movimentam e que querem ver independente do Mali, área que está integrada em três províncias do Norte do país: Kidal, Gao e Timbuktu. Estima-se que o número de homens armados ronde o milhar.
Além dos regressados da Líbia, também desertores do exército e jovens activistas com domínio das novas tecnologias fazem parte do grupo. O comandante das tropas é Mohamed Ag Najim, um ex-coronel do exército líbio com muitos anos de carreira.
Outros homens armados, provenientes do movimento liderado por Ibrahim ag Bahanga, que morreu num acidente de carro no ano passado, também se juntaram ao MNLA. Também eles preparavam uma rebelião, tal como o movimento juvenil MNA, que surgiu em 2010 e que agora também se juntou aos revoltosos.
O optimismo do MNLA deriva não só da actual superioridade militar mas também do facto de o paradigma da manutenção das fronteiras africanas deixadas pelo colonialismo ter sido quebrado com a independência do Sudão do Sul.
A resposta do governo tem sido sobretudo através do recurso a meios aéreos, como helicópteros, mas sem sucesso, dadas as características desérticas do terreno, de que os tuaregues têm um profundo conhecimento. A piorar a situação para o lado governamental regista-se o facto de a maioria dos tuaregues que integravam o exército terem desertado.
Assim, o regime de Touré tentou controlar nas últimas semanas a insatisfação na frente de batalha. Recentemente dizia que nem sequer tinha uma perspectiva temporal para o fim do conflito, admitindo que pudesse arrastar-se durante meses ou anos.
O tenente Amadou Konaré, porta-voz dos amotinados, denunciou o "fracasso" do governo "para administrar a crise" no norte.
Esta é a situação quando fechamos a edição deste programa, mas há a possibilidade de haver um volte-face. Do interior do Mali, analistas apontam para a debilidade dos revoltosos, que estão mal equipados, são liderados por oficiais de baixa patente e não têm o apoio de todo o exército. Em contraste, os boinas-vermelhas que constituíam a guarda presidencial e que, tudo indica, estão ainda a proteger o presidente Amadou Touré, são uma força de elite bem armada e treinada. Por esta altura, portanto, o contra-golpe não é ainda um cenário que deva ser afastado.
25 de mar. de 2012
20 de mar. de 2012
Quénia, Sudão do Sul e Etiópia lançam projecto para mudar a região
Um projecto conjunto do Quénia, Sudão do Sul e Etiópia para a construção de um conjunto de infra-estruturas de transporte foi lançado este mês, com um porto a instalar na cidade queniana de Lamu como parte mais visível.
Na cerimónia de lançamento estiveram presentes os presidentes queniano, Mwai Kibaki, sul-sudanês, Salva Kiir, e o primeiro ministro etíope Meles Zenawi.
A participação dos três chefes de Estado ou de governo atesta bem a importância do projecto. A construção irá custar 23 mil milhões de dólares e espera-se que esteja concluída em quatro anos.
É um projecto ambicioso que deverá mudar a face daquela região ao norte da faixa costeira do Quénia, já próximo da fronteira com a Somália. Este facto pode explicar em parte o envolvimento de tropas quenianas e etíopes no conflito somali.
Lamu será o centro do projecto, onde o porto de mar será construído, mas onde será instalada também uma refinaria, um terminal do oleoduto, uma auto-estrada e linha de caminho-de-ferro, ligando o Quénia, Etiópia e Sudão do Sul. Tudo isto acompanhado de um cabo de fibra óptica que facilitará as comunicações no coração de África.
Para esta que é a mais recente nação africana, o projecto é vital, tendo em conta o diferendo que subsiste com o vizinho do norte e que a impede de escoar o petróleo que extrai.
De resto, as autoridades em Juba já estão a socorrer-se de um porto queniano para exportar crude, transportado em camiões, uma vez que ainda não há cordo com Cartum para a utilização do oleoduto que atravessa o país. O Sudão do Sul pretende escoar desta forma pelo menos 10 por cento da sua produção.
O presidente queniano considerou o lançamento da obra como “um dia que ficará na história como uma data marcante – quando foi dado um passo de gigante para ligar os povos às muitas oportunidades sócio-económicas que têm pela frente”.
No conjunto, o projecto é designado como Porto de Lamu, Corredor de Transporte Sudão do Sul Etíópia, LAPSEET, na sigla em inglês.
Numa fase inicial, o financiamento será assegurado pelos governos dos três países, mas estão a ser estabelecidos contactos com potenciais investidores internacionais para participarem no esforço financeiro. Com esse objectivo o primeiro-ministro queniano, Raila Odinga, partiu para Bruxelas, na Bélgica, onde foi participar numa conferência onde se procura estimular os investimentos no Continente africano.
Esta abordagem ao sector privado permite também a criação de outras oportunidades de negócio, a atingirem vários milhões de dólares norte-americanos, em áreas adjacentes ao porto.
Um exemplo disso é o já instalado Lamu Centre, com uma área de mais de quatro mil metros quadrados, que espera vir a beneficiar da proximidade com o porto.
Muitos países, com a China à cabeça, deverão também aproveitar a oportunidade, investindo fortemente no projecto e em estruturas paralelas. Mas há preocupações quanto aos benefícios que a população local terá da nova estrutura, uma vez que ela vai requerer, na maioria, mão-de-obra qualificada.
Em resposta a estas preocupações o presidente Mwai Kibaki garantiu que mil jovens vão beneficiar de formação, por forma a poderem ocupar lugares de trabalho no porto. Por outro lado o presidente queniano prometeu distribuir títulos de propriedade de terrenos pelos habitantes de Lamu, para lhes garantir benefícios económicos.
O LAPSEET deverá proporcionar benefícios aos 167 milhões de habitantes da região.
Pelo lado queniano, onde a estrutura será erguida, a principal vantagem será passar a dispor de um segundo porto, além do de Mombassa, que não consegue satisfazer a procura dos países vizinhos sem acesso ao Oceano Índico. O Porto de Lamu será cinco vezes maior que o de Mombassa, o que irá permitir ao Quénia beneficiar muito mais servindo as necessidades dos países que passarão a utilizá-lo.
De resto, a região norte do Quénia é considerada abandonada em termos de desenvolvimento desde a independência do país, em 1963, pelo que esta é uma oportunidade de reverter a situação.
Pela parte etíope, o Porto de Lamu constituirá uma alternativa ao do Djibuti, e uma via alternativa para as exportações se, como o governo de Adis Ababa espera, for descoberto petróleo na região de Ogaden, no extremo Leste do país. A prospecção está em curso.
Além disso, apesar de Etiópia e Quénia partilharem uma vasta fronteira, as ligações rodoviárias entre os dois países são mínimas, dificultando muito as trocas comerciais.
Para o Sudão do Sul, a que já nos referimos a propósito do diferendo que mantém com o Sudão, de quem se separou no ano passado, Lamu constituirá uma segunda independência relativamente ao vizinho do Norte.
Este é, assim, considerado o maior projecto africano e constitui um exemplo prático das manifestações políticas expressas pelos dirigentes do nosso Continente na última cimeira da União Africana, que se debruçou, precisamente, sobre a necessidade de incrementar o comércio entre os países membros.
Mas há preocupações sérias à volta desta grande obra. Uma delas diz respeito ao património, já que Lamu está classificado pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade, em situação de risco. A cidade possui exemplo de arquitectura dos muçulmanos africanos que aquele organismo das Nações Unidas reconhece como de grande valor.
Por isso teme-se que a entrada de novos habitantes na região vá prejudicar irreversivelmente o património. Essas preocupações parecem legítimas, já que se estima em cerca de meio milhão o número de pessoas que deverá afluir a Lamu na sequência da abertura do porto.
Por outro lado haverá também, necessariamente, forte impacto ambiental, numa região que é das poucas relativamente preservadas e considerada de muita beleza na costa Oriental de África. A construção de todas as estruturas implicará o derrube de árvores da rica floresta de mangueiras que acompanha a costa queniana.
O criticismo de que o projecto tem sido alvo foi rebatido pelo presidente Kibaki, que acusou os opositores de estarem a ser “enganados e incitados por europeus, que não fizeram nada para ajudar a população afectada pela pobreza” e desafiou-os a dizer o que fizeram antes de se oporem à obra.
Além dos críticos, há ainda os cépticos.
Quando se fala de projectos desta grandeza não é difícil questionar se a obra irá, ou não para a frente, dadas as experiências anteriores e, sobretudo, os valores em causa – 23 mil milhões de dólares, recorde-se –, que ainda não estão assegurados.
Embora o risco de não concretização do Lapsset não possa ser posto de parte, sobretudo se for tida em conta a conjuntura económica internacional destes tempos, o empenho dos governos dos três países parece dar garantias de que ele irá mesmo para a frente.
Enquanto o Sudão do Sul tem nas exportações de petróleo uma fonte de receita garantida, a Etiópia tem-se destacado pelo elevado índice de crescimento económico ao longo dos últimos anos. O país teve uma média de crescimento de 8,4% entre 2001 e 2010, a quinta mais alta do Mundo, e as estimativas apontam para uma média de 8,1 até ao final desta década, colocando-o no terceiro lugar mundial, só ultrapassado por China e Índia.
A comprovar o empenho queniano, e na falta de outras fontes de financiamento, o governo decidiu vender um hotel de Nairobi por 30 milhões de dólares que serão injectados como financiamento inicial.
A política de se avançar com a obra na esperança de que os investidores surjam é, de facto, perigosa. Tem-se falado também do envolvimento de empresas de capitais e do envolvimento do Estado chinês, mas oficialmente nada disto está confirmado.
No campo dos riscos contabiliza-se, ainda, a proximidade com a Somália. É precisamente naquela área que têm operado os famigerados piratas. A esperança é que o movimento originado pelo porto os afaste da zona, mas eles não deixam de constituir um factor de instabilidade.
E foi precisamente próximo de Lamu que uma trabalhadora francesa de uma organização humanitária foi raptada no ano passado, levando ao envolvimento queniano no conflito somali.
Sintomaticamente, e como aqui já fizemos referência, os três países envolvidos no Lapsset, todos eles fazendo fronteira com a Somália, têm tropas no terreno. No entanto, a União Africana anunciou ontem que os soldados etíopes irão deixar o contingente que combate os islamitas da al-Shabab no fim de Abril, sendo substituídos por tropas do Djibuti, Uganda e Burundi.
O LAPSEET constitui, também, uma nova via na diplomacia queniana. Quénia, Uganda e Tanzânia são, ao longo dos últimos anos, o centro da Comunidade dos Países da África Oriental. Na mesma região, o Ruanda tem vindo a reclamar um papel mais interveniente. Nenhum destes três países está envolvido no projecto, nem foram convidados a assistir à cerimónia de lançamento da primeira pedra.
Este é entendido como um sinal claro que de o Quénia reorientou a sua política de alianças para Norte, embora não haja nenhuma declaração oficial nesse sentido.
Esta viragem do Quénia pode ser entendida no contexto da concorrência comercial. Na região, a Tanzânia é o país que tem condições para competir com o Quénia em matéria de portos. De facto, os tanzanianos têm até planos para a construção de uma grande estrutura portuária em Mwambani, na província de Tanga, na região Norte do país que faz fronteira precisamente com o Quénia.
Os especialistas dizem que em toda a África Oriental, Central e Sul, excluindo o caso sul-africano, só há viabilidade económica para um porto no Índico que funcione como “hub” para grandes navios, servindo todos os outros apenas como entrepostos.
Na Tanzânia os agentes económicos ligados à navegação pedem o arranque imediato da construção do Porto de Mwambani, receando perder a corrida para os vizinhos quenianos. Mas o facto é que, enquanto em Lamu a obra já começou, na Tanzânia a estrutura não passa ainda de uma ideia, sem qualquer plano já passado a papel.
Neste cenário, o existente Porto de Dar es Salam, apesar das limitações que apresenta, deverá continuar a ser o principal do país.
Na cerimónia de lançamento estiveram presentes os presidentes queniano, Mwai Kibaki, sul-sudanês, Salva Kiir, e o primeiro ministro etíope Meles Zenawi.
A participação dos três chefes de Estado ou de governo atesta bem a importância do projecto. A construção irá custar 23 mil milhões de dólares e espera-se que esteja concluída em quatro anos.
É um projecto ambicioso que deverá mudar a face daquela região ao norte da faixa costeira do Quénia, já próximo da fronteira com a Somália. Este facto pode explicar em parte o envolvimento de tropas quenianas e etíopes no conflito somali.
Lamu será o centro do projecto, onde o porto de mar será construído, mas onde será instalada também uma refinaria, um terminal do oleoduto, uma auto-estrada e linha de caminho-de-ferro, ligando o Quénia, Etiópia e Sudão do Sul. Tudo isto acompanhado de um cabo de fibra óptica que facilitará as comunicações no coração de África.
Para esta que é a mais recente nação africana, o projecto é vital, tendo em conta o diferendo que subsiste com o vizinho do norte e que a impede de escoar o petróleo que extrai.
De resto, as autoridades em Juba já estão a socorrer-se de um porto queniano para exportar crude, transportado em camiões, uma vez que ainda não há cordo com Cartum para a utilização do oleoduto que atravessa o país. O Sudão do Sul pretende escoar desta forma pelo menos 10 por cento da sua produção.
O presidente queniano considerou o lançamento da obra como “um dia que ficará na história como uma data marcante – quando foi dado um passo de gigante para ligar os povos às muitas oportunidades sócio-económicas que têm pela frente”.
No conjunto, o projecto é designado como Porto de Lamu, Corredor de Transporte Sudão do Sul Etíópia, LAPSEET, na sigla em inglês.
Numa fase inicial, o financiamento será assegurado pelos governos dos três países, mas estão a ser estabelecidos contactos com potenciais investidores internacionais para participarem no esforço financeiro. Com esse objectivo o primeiro-ministro queniano, Raila Odinga, partiu para Bruxelas, na Bélgica, onde foi participar numa conferência onde se procura estimular os investimentos no Continente africano.
Esta abordagem ao sector privado permite também a criação de outras oportunidades de negócio, a atingirem vários milhões de dólares norte-americanos, em áreas adjacentes ao porto.
Um exemplo disso é o já instalado Lamu Centre, com uma área de mais de quatro mil metros quadrados, que espera vir a beneficiar da proximidade com o porto.
Muitos países, com a China à cabeça, deverão também aproveitar a oportunidade, investindo fortemente no projecto e em estruturas paralelas. Mas há preocupações quanto aos benefícios que a população local terá da nova estrutura, uma vez que ela vai requerer, na maioria, mão-de-obra qualificada.
Em resposta a estas preocupações o presidente Mwai Kibaki garantiu que mil jovens vão beneficiar de formação, por forma a poderem ocupar lugares de trabalho no porto. Por outro lado o presidente queniano prometeu distribuir títulos de propriedade de terrenos pelos habitantes de Lamu, para lhes garantir benefícios económicos.
O LAPSEET deverá proporcionar benefícios aos 167 milhões de habitantes da região.
Pelo lado queniano, onde a estrutura será erguida, a principal vantagem será passar a dispor de um segundo porto, além do de Mombassa, que não consegue satisfazer a procura dos países vizinhos sem acesso ao Oceano Índico. O Porto de Lamu será cinco vezes maior que o de Mombassa, o que irá permitir ao Quénia beneficiar muito mais servindo as necessidades dos países que passarão a utilizá-lo.
De resto, a região norte do Quénia é considerada abandonada em termos de desenvolvimento desde a independência do país, em 1963, pelo que esta é uma oportunidade de reverter a situação.
Pela parte etíope, o Porto de Lamu constituirá uma alternativa ao do Djibuti, e uma via alternativa para as exportações se, como o governo de Adis Ababa espera, for descoberto petróleo na região de Ogaden, no extremo Leste do país. A prospecção está em curso.
Além disso, apesar de Etiópia e Quénia partilharem uma vasta fronteira, as ligações rodoviárias entre os dois países são mínimas, dificultando muito as trocas comerciais.
Para o Sudão do Sul, a que já nos referimos a propósito do diferendo que mantém com o Sudão, de quem se separou no ano passado, Lamu constituirá uma segunda independência relativamente ao vizinho do Norte.
Este é, assim, considerado o maior projecto africano e constitui um exemplo prático das manifestações políticas expressas pelos dirigentes do nosso Continente na última cimeira da União Africana, que se debruçou, precisamente, sobre a necessidade de incrementar o comércio entre os países membros.
Mas há preocupações sérias à volta desta grande obra. Uma delas diz respeito ao património, já que Lamu está classificado pela UNESCO como Património Cultural da Humanidade, em situação de risco. A cidade possui exemplo de arquitectura dos muçulmanos africanos que aquele organismo das Nações Unidas reconhece como de grande valor.
Por isso teme-se que a entrada de novos habitantes na região vá prejudicar irreversivelmente o património. Essas preocupações parecem legítimas, já que se estima em cerca de meio milhão o número de pessoas que deverá afluir a Lamu na sequência da abertura do porto.
Por outro lado haverá também, necessariamente, forte impacto ambiental, numa região que é das poucas relativamente preservadas e considerada de muita beleza na costa Oriental de África. A construção de todas as estruturas implicará o derrube de árvores da rica floresta de mangueiras que acompanha a costa queniana.
O criticismo de que o projecto tem sido alvo foi rebatido pelo presidente Kibaki, que acusou os opositores de estarem a ser “enganados e incitados por europeus, que não fizeram nada para ajudar a população afectada pela pobreza” e desafiou-os a dizer o que fizeram antes de se oporem à obra.
Além dos críticos, há ainda os cépticos.
Quando se fala de projectos desta grandeza não é difícil questionar se a obra irá, ou não para a frente, dadas as experiências anteriores e, sobretudo, os valores em causa – 23 mil milhões de dólares, recorde-se –, que ainda não estão assegurados.
Embora o risco de não concretização do Lapsset não possa ser posto de parte, sobretudo se for tida em conta a conjuntura económica internacional destes tempos, o empenho dos governos dos três países parece dar garantias de que ele irá mesmo para a frente.
Enquanto o Sudão do Sul tem nas exportações de petróleo uma fonte de receita garantida, a Etiópia tem-se destacado pelo elevado índice de crescimento económico ao longo dos últimos anos. O país teve uma média de crescimento de 8,4% entre 2001 e 2010, a quinta mais alta do Mundo, e as estimativas apontam para uma média de 8,1 até ao final desta década, colocando-o no terceiro lugar mundial, só ultrapassado por China e Índia.
A comprovar o empenho queniano, e na falta de outras fontes de financiamento, o governo decidiu vender um hotel de Nairobi por 30 milhões de dólares que serão injectados como financiamento inicial.
A política de se avançar com a obra na esperança de que os investidores surjam é, de facto, perigosa. Tem-se falado também do envolvimento de empresas de capitais e do envolvimento do Estado chinês, mas oficialmente nada disto está confirmado.
No campo dos riscos contabiliza-se, ainda, a proximidade com a Somália. É precisamente naquela área que têm operado os famigerados piratas. A esperança é que o movimento originado pelo porto os afaste da zona, mas eles não deixam de constituir um factor de instabilidade.
E foi precisamente próximo de Lamu que uma trabalhadora francesa de uma organização humanitária foi raptada no ano passado, levando ao envolvimento queniano no conflito somali.
Sintomaticamente, e como aqui já fizemos referência, os três países envolvidos no Lapsset, todos eles fazendo fronteira com a Somália, têm tropas no terreno. No entanto, a União Africana anunciou ontem que os soldados etíopes irão deixar o contingente que combate os islamitas da al-Shabab no fim de Abril, sendo substituídos por tropas do Djibuti, Uganda e Burundi.
O LAPSEET constitui, também, uma nova via na diplomacia queniana. Quénia, Uganda e Tanzânia são, ao longo dos últimos anos, o centro da Comunidade dos Países da África Oriental. Na mesma região, o Ruanda tem vindo a reclamar um papel mais interveniente. Nenhum destes três países está envolvido no projecto, nem foram convidados a assistir à cerimónia de lançamento da primeira pedra.
Este é entendido como um sinal claro que de o Quénia reorientou a sua política de alianças para Norte, embora não haja nenhuma declaração oficial nesse sentido.
Esta viragem do Quénia pode ser entendida no contexto da concorrência comercial. Na região, a Tanzânia é o país que tem condições para competir com o Quénia em matéria de portos. De facto, os tanzanianos têm até planos para a construção de uma grande estrutura portuária em Mwambani, na província de Tanga, na região Norte do país que faz fronteira precisamente com o Quénia.
Os especialistas dizem que em toda a África Oriental, Central e Sul, excluindo o caso sul-africano, só há viabilidade económica para um porto no Índico que funcione como “hub” para grandes navios, servindo todos os outros apenas como entrepostos.
Na Tanzânia os agentes económicos ligados à navegação pedem o arranque imediato da construção do Porto de Mwambani, receando perder a corrida para os vizinhos quenianos. Mas o facto é que, enquanto em Lamu a obra já começou, na Tanzânia a estrutura não passa ainda de uma ideia, sem qualquer plano já passado a papel.
Neste cenário, o existente Porto de Dar es Salam, apesar das limitações que apresenta, deverá continuar a ser o principal do país.
A incursão etíope na Eritreia
Forças etíopes invadiram na última quinta-feira a Eritreia e conduziram o que um porta-voz do governo da Etiópia, Shimeles Kemal, disse ter sido um "ataque de sucesso" contra postos militares eritreus.
Kemal disse que a Etiópia iniciou as hostilidades porque a Eritreia está a treinar "grupos subversivos" que conduzem ataques em território etíope.
Shimeles sustentou que o governo da Eritreia continuou a lançar ataques contra a Etiópia através de grupos que treina e que esses ataques continuam. Os recentes ataques contra turistas europeus foram uma das razões para retaliar, acrescentou.
De facto, em Janeiro, militantes atacaram turistas europeus de cinco nacionalidades que viajavam perto norte da Etiópia. Cinco turistas foram mortos e dois sequestrados. Os dois sequestrados, alemães, já foram soltos.
O porta-voz etíope garante que as medidas postas em prática não constituem uma confrontação militar direta entre os dois países.
Shimeles disse ainda ser improvável que a Eritreia lance um contra-ataque porque "não está em situação que permita isso".
Recorde-se que a Etiópia e a Eritreia travaram uma guerra, com as fronteiras como razão, entre 1998 e 2000, que deixou um rasto de 80 mil mortos.
As tensões voltaram a crescer entre os dois países da África Oriental nos últimos meses. Não foram fornecidos detalhes sobre baixas militares ou operações em curso.
Rashid Abdi, um analista regional que já trabalhou para o Grupo Internacional de Crises, disse que o ataque etíope representa "más notícias" que afectarão o conflito na Somália, onde tropas etíopes lutam contra militantes da rede extremista al-Shabab.
Disse ainda temer que o conflito entre a Etiópia e a Eritreia cresça e se transforme numa nova guerra, se a União Europeia ou os Estados Unidos não intervierem. Sustenta que mesmo que a Eritreia não lance um contra-ataque em retaliação, tentará prejudicar a Etiópia ao rearmar a al-Shabab na Somália. Abdi considera que mesmo sendo a Etiópia uma potência militar na África Oriental, não conseguirá lutar duas guerras ao mesmo tempo.
Há cerca de um ano, o primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi, disse ao Parlamento que o seu governo apoiaria activamente grupos da oposição na Eritreia para tentar derrubar o regime do país vizinho.
A Etiópia também culpa a Eritreia por ter maquinado vários ataques à bomba em Adis-Ababa, em Janeiro de 2011, durante a cimeira da União Africana.
Já a Eritreia não recebe auxílio estrangeiro e está sob várias sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) por violações contra os direitos humanos.
Relatórios da ONU afirmam que o país apoia a Al-Shabab, que possui ligações com a Al-Qaeda e acabou por pedir ajuda precisamente às Nações Unidas.
A Eritreia nega as acusações de apoio aos extremistas islâmicos da al-Shabab, apesar de, como se disse, estar sob sanções da ONU por causa disso.
Face à investida militar etíope desta semana contra campos de treino de supostos grupos terroristas que realizam atentados na Etiópia, a Eritreia pediu ajuda à ONU na sexta-feira. O Exército etíope entrou cerca de 15 quilómetros em solo da Eritreia e atacou as regiões de Ramid, Gelahbe e Gimbina, na fronteira nordeste da Etiópia.
Numa carta enviada ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e divulgada ontem, o Executivo da Eritreia fez um apelo ao organismo para que "assuma suas responsabilidades legais e morais e adopte as medidas adequadas para interromper os actos de agressão contra a Eritreia".
"O povo e o governo da Eritreia não servirão de entretenimento nem cairão na armadilha de semelhantes artifícios falsos", afirmou o governo do país, ao alegar que os ataques só buscam desviar a atenção de importantes problemas nacionais na Etiópia.
O governo da Eritreia acrescentou que o ataque contra um posto militar foi feito para desviar a atenção da longa disputa de fronteira que os dois países têm há décadas.
O governo eritreu considera ser "manifestamente claro que o regime etíope não poderia desfechar um acto tão flagrante de agressão, com tanta audácia, sem a proteção dos Estados Unidos no Conselho de Segurança" da ONU, isto segundo o ministro das Relações Exteriores, Osman Saleh.
As acusações da Eritreia aos EUA de supostamente permitirem abusos da Etiópia, que está alinhada com Washington desde a década passada, são recorrentes, desde que os etíopes se tornaram aliados dos Estados Unidos na chamada guerra contra o terror.
Assim, o chanceler da Eritreia, em nome do governo, pediu ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, pela enésima vez, que arque com suas responsabilidades e tome medidas apropriadas para rectificar os actos de agressão contra os territórios soberanos da Eritreia e garanta a justiça e o respeito à lei.
Para sustentar o pedido lembrou que a Etiópia ataca território eritreu há dez anos e que o assalto da quinta-feira foi desfechado para encobrir o facto de que a Etiópia ocupa território da Eritreia, desde que os dois países travaram várias guerras desde a década de 1940, quando deixaram de ser colónias italianas. Essas guerras só terminaram em 1993, após 30 anos, quando a Eritreia obteve sua independência.
Uma leitura atenta da história mostra como em todas estas situações os interesses imperialistas, da era pós-colonial, estão na base destes conflitos. De facto, se hoje as potências ocidentais do hemisfério norte estão alinhadas com a Etiópia, na guerra de secessão estimularam e apoiaram a Eritreia, como forma de enfraquecer Adis Ababa, que na altura não alinhava com os interesses de Estados Unidos e antigas potências coloniais.
A Eritreia está localizada no Corno África. Faz fronteira, a Sul, com o Djibouti, a Etiópia, a Oeste, e com o Sudão a Noroeste. Toda a faixa Leste é banhada pelo Mar Vermelho.
Esta posição geográfica é de grande importância, pois localiza-se no estreito de Bab el Mandeb, ponto de passagem entre o Canal do Suez e o Oceano Índico.
O país foi criado pela Itália a de Janeiro de 1890, sendo ocupado pelos italianos até 1941. Posteriormente, a Eritreia ficou sob domínio britânico, entre 1941 e 1952, quando, na sequência da derrota italiana na II Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas concedeu autonomia ao país, que se federou com a Etiópia. Somente no dia 24 de março de 1993 a Eritreia obteve a sua independência, como se disse já após uma guerra que se prolongou por mais de 30 anos que devastou o país, deixando aproximadamente 100 mil mortos e 350 mil refugiados.
As actividades económicas no país são prejudicadas pela irregularidade das chuvas e pelas consequências dos vários anos de guerra.
A agricultura de subsistência é praticada por 80% da população. O sector industrial concentra-se na capital, Asmara, e baseia-se na fabricação de produtos alimentícios, têxteis e artigos de couro.
A população enfrenta vários problemas de ordem socio-económica – 68% dos habitantes são subnutridos; grande parcela da população é portadora do vírus HIV; o índice de analfabetismo é de 36% e a maioria da população vive com menos de 1 dólar e 25 cêntimos por dia, ou seja, abaixo da linha de pobreza.
Politicamente, a Eritreia é um regime de partido único, a Frente Popular para a Democracia e Justiça, e tem como presidente Isaias Afewerki, que ocupa o cargo desde 1993. Antes da independência, no entanto, já era o líder “de fecto” do país em luta.
Para 1997 estiveram marcadas eleições, que nunca chegaram a realizar-se.
Dadas as limitações às liberdades e o estado de conflito permanente em que se encontra, a Eritreia debate-se com sérios problemas de mão-de-obra, uma vez que muitos dos jovens que não estão a cumprir serviço militar optam por abandonar o país.
Já a Etiópia atravessa uma era de grande sucesso económico: tem-se destacado pelo elevado índice de crescimento ao longo dos últimos anos. O país teve uma média de crescimento de 8,4% entre 2001 e 2010, a quinta mais alta do Mundo, e as estimativas apontam para uma média de 8,1 até ao final desta década, colocando-o no terceiro lugar mundial, só ultrapassado por China e Índia.
Trata-se do mais antigo país independente de África, com a particularidade de nunca ter sido colonizado. O único período em que tropas estrangeiras tomaram o país foi durante a II Guerra Mundial, quando a Itália de Mussolini a ocupou.
O primeiro-ministro Meles Zenawi foi eleito em 2010 para um mandato de quatro anos.
Militarmente, além do conflito que mantém com a Eritreia, a Etiópia enviou soldados para a Somália, onde combatem contra a al-Shabab ao lado dos militares da força da União Africana. Na semana passada, no entanto, foi anunciada para Abril a retirada do contingente.
Como já fizemos referência, a Etiópia é um aliado estratégico dos Estados Unidos no Corno de África.
(A informação de actualidade neste artigo foi recolhida de agências de notícias)
Kemal disse que a Etiópia iniciou as hostilidades porque a Eritreia está a treinar "grupos subversivos" que conduzem ataques em território etíope.
Shimeles sustentou que o governo da Eritreia continuou a lançar ataques contra a Etiópia através de grupos que treina e que esses ataques continuam. Os recentes ataques contra turistas europeus foram uma das razões para retaliar, acrescentou.
De facto, em Janeiro, militantes atacaram turistas europeus de cinco nacionalidades que viajavam perto norte da Etiópia. Cinco turistas foram mortos e dois sequestrados. Os dois sequestrados, alemães, já foram soltos.
O porta-voz etíope garante que as medidas postas em prática não constituem uma confrontação militar direta entre os dois países.
Shimeles disse ainda ser improvável que a Eritreia lance um contra-ataque porque "não está em situação que permita isso".
Recorde-se que a Etiópia e a Eritreia travaram uma guerra, com as fronteiras como razão, entre 1998 e 2000, que deixou um rasto de 80 mil mortos.
As tensões voltaram a crescer entre os dois países da África Oriental nos últimos meses. Não foram fornecidos detalhes sobre baixas militares ou operações em curso.
Rashid Abdi, um analista regional que já trabalhou para o Grupo Internacional de Crises, disse que o ataque etíope representa "más notícias" que afectarão o conflito na Somália, onde tropas etíopes lutam contra militantes da rede extremista al-Shabab.
Disse ainda temer que o conflito entre a Etiópia e a Eritreia cresça e se transforme numa nova guerra, se a União Europeia ou os Estados Unidos não intervierem. Sustenta que mesmo que a Eritreia não lance um contra-ataque em retaliação, tentará prejudicar a Etiópia ao rearmar a al-Shabab na Somália. Abdi considera que mesmo sendo a Etiópia uma potência militar na África Oriental, não conseguirá lutar duas guerras ao mesmo tempo.
Há cerca de um ano, o primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi, disse ao Parlamento que o seu governo apoiaria activamente grupos da oposição na Eritreia para tentar derrubar o regime do país vizinho.
A Etiópia também culpa a Eritreia por ter maquinado vários ataques à bomba em Adis-Ababa, em Janeiro de 2011, durante a cimeira da União Africana.
Já a Eritreia não recebe auxílio estrangeiro e está sob várias sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) por violações contra os direitos humanos.
Relatórios da ONU afirmam que o país apoia a Al-Shabab, que possui ligações com a Al-Qaeda e acabou por pedir ajuda precisamente às Nações Unidas.
A Eritreia nega as acusações de apoio aos extremistas islâmicos da al-Shabab, apesar de, como se disse, estar sob sanções da ONU por causa disso.
Face à investida militar etíope desta semana contra campos de treino de supostos grupos terroristas que realizam atentados na Etiópia, a Eritreia pediu ajuda à ONU na sexta-feira. O Exército etíope entrou cerca de 15 quilómetros em solo da Eritreia e atacou as regiões de Ramid, Gelahbe e Gimbina, na fronteira nordeste da Etiópia.
Numa carta enviada ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e divulgada ontem, o Executivo da Eritreia fez um apelo ao organismo para que "assuma suas responsabilidades legais e morais e adopte as medidas adequadas para interromper os actos de agressão contra a Eritreia".
"O povo e o governo da Eritreia não servirão de entretenimento nem cairão na armadilha de semelhantes artifícios falsos", afirmou o governo do país, ao alegar que os ataques só buscam desviar a atenção de importantes problemas nacionais na Etiópia.
O governo da Eritreia acrescentou que o ataque contra um posto militar foi feito para desviar a atenção da longa disputa de fronteira que os dois países têm há décadas.
O governo eritreu considera ser "manifestamente claro que o regime etíope não poderia desfechar um acto tão flagrante de agressão, com tanta audácia, sem a proteção dos Estados Unidos no Conselho de Segurança" da ONU, isto segundo o ministro das Relações Exteriores, Osman Saleh.
As acusações da Eritreia aos EUA de supostamente permitirem abusos da Etiópia, que está alinhada com Washington desde a década passada, são recorrentes, desde que os etíopes se tornaram aliados dos Estados Unidos na chamada guerra contra o terror.
Assim, o chanceler da Eritreia, em nome do governo, pediu ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, pela enésima vez, que arque com suas responsabilidades e tome medidas apropriadas para rectificar os actos de agressão contra os territórios soberanos da Eritreia e garanta a justiça e o respeito à lei.
Para sustentar o pedido lembrou que a Etiópia ataca território eritreu há dez anos e que o assalto da quinta-feira foi desfechado para encobrir o facto de que a Etiópia ocupa território da Eritreia, desde que os dois países travaram várias guerras desde a década de 1940, quando deixaram de ser colónias italianas. Essas guerras só terminaram em 1993, após 30 anos, quando a Eritreia obteve sua independência.
Uma leitura atenta da história mostra como em todas estas situações os interesses imperialistas, da era pós-colonial, estão na base destes conflitos. De facto, se hoje as potências ocidentais do hemisfério norte estão alinhadas com a Etiópia, na guerra de secessão estimularam e apoiaram a Eritreia, como forma de enfraquecer Adis Ababa, que na altura não alinhava com os interesses de Estados Unidos e antigas potências coloniais.
A Eritreia está localizada no Corno África. Faz fronteira, a Sul, com o Djibouti, a Etiópia, a Oeste, e com o Sudão a Noroeste. Toda a faixa Leste é banhada pelo Mar Vermelho.
Esta posição geográfica é de grande importância, pois localiza-se no estreito de Bab el Mandeb, ponto de passagem entre o Canal do Suez e o Oceano Índico.
O país foi criado pela Itália a de Janeiro de 1890, sendo ocupado pelos italianos até 1941. Posteriormente, a Eritreia ficou sob domínio britânico, entre 1941 e 1952, quando, na sequência da derrota italiana na II Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas concedeu autonomia ao país, que se federou com a Etiópia. Somente no dia 24 de março de 1993 a Eritreia obteve a sua independência, como se disse já após uma guerra que se prolongou por mais de 30 anos que devastou o país, deixando aproximadamente 100 mil mortos e 350 mil refugiados.
As actividades económicas no país são prejudicadas pela irregularidade das chuvas e pelas consequências dos vários anos de guerra.
A agricultura de subsistência é praticada por 80% da população. O sector industrial concentra-se na capital, Asmara, e baseia-se na fabricação de produtos alimentícios, têxteis e artigos de couro.
A população enfrenta vários problemas de ordem socio-económica – 68% dos habitantes são subnutridos; grande parcela da população é portadora do vírus HIV; o índice de analfabetismo é de 36% e a maioria da população vive com menos de 1 dólar e 25 cêntimos por dia, ou seja, abaixo da linha de pobreza.
Politicamente, a Eritreia é um regime de partido único, a Frente Popular para a Democracia e Justiça, e tem como presidente Isaias Afewerki, que ocupa o cargo desde 1993. Antes da independência, no entanto, já era o líder “de fecto” do país em luta.
Para 1997 estiveram marcadas eleições, que nunca chegaram a realizar-se.
Dadas as limitações às liberdades e o estado de conflito permanente em que se encontra, a Eritreia debate-se com sérios problemas de mão-de-obra, uma vez que muitos dos jovens que não estão a cumprir serviço militar optam por abandonar o país.
Já a Etiópia atravessa uma era de grande sucesso económico: tem-se destacado pelo elevado índice de crescimento ao longo dos últimos anos. O país teve uma média de crescimento de 8,4% entre 2001 e 2010, a quinta mais alta do Mundo, e as estimativas apontam para uma média de 8,1 até ao final desta década, colocando-o no terceiro lugar mundial, só ultrapassado por China e Índia.
Trata-se do mais antigo país independente de África, com a particularidade de nunca ter sido colonizado. O único período em que tropas estrangeiras tomaram o país foi durante a II Guerra Mundial, quando a Itália de Mussolini a ocupou.
O primeiro-ministro Meles Zenawi foi eleito em 2010 para um mandato de quatro anos.
Militarmente, além do conflito que mantém com a Eritreia, a Etiópia enviou soldados para a Somália, onde combatem contra a al-Shabab ao lado dos militares da força da União Africana. Na semana passada, no entanto, foi anunciada para Abril a retirada do contingente.
Como já fizemos referência, a Etiópia é um aliado estratégico dos Estados Unidos no Corno de África.
(A informação de actualidade neste artigo foi recolhida de agências de notícias)
9 de mar. de 2012
Outras coisas invisíveis além das crianças de Kony
Como agora o tema entrou na moda, aí vai um contributo. Tratei do assunto a 22 de Novembro do ano passado, o que deve ser tido em conta nas referências temporais.
O presidente ugandês Yoweri Museveni só não é conhecido do mundo porque não interessa aos Estados Unidos, uma vez que as práticas de governo, o respeito pelos direitos humanos, e os outros temas que fazem cair em desgraça deixam muito a desejar.
O critério para se ser bom ou mau, aos olhos dos Estados Unidos, depende apenas dos interesses militares e económicos.
Chama-se a isto real politic.
O Uganda é o tema principal do programa de hoje. Um país que agora chama a atenção porque tem no território militares norte-americanos para apoiar um governo corrupto numa guerra contra um messias com sessenta mulheres.
No Uganda a política mistura-se com religião e armas. Há dois actores principais neste processo: o presidente Yoweri Museveni e o líder do Exército de Resistência do Senhor, Joseph Kony.
O presidente Museveni já foi, em tempos, um guerrilheiro: liderava o Movimento Nacional de Resistência que se opunha às forças de Milton Obote, depois de este ter regressado ao poder quando derrubou Idi Amin, que por sua vez já tinha derrubado o mesmo Obote.
Assim, de 1971, quando Idi Amin sobe ao poder, até 1986, quando o actual presidente Museveni assumiu o cargo, estima-se que mais de meio milhão de pessoas tenham sido mortas pelo poder instituído.
Yoweri Museveni fez o que o Ocidente gosta: acordos com o Fundo Monetário Internacional, reformas no Estado adaptando-o ao estilo ocidental, abertura da economia ao capital estrangeiro e anunciou medidas no sentido das chamadas reformas democráticas.
Neste período que se descobrem grandes reservas de petróleo e gás no Uganda.
Hoje, bem visto pelo Ocidente, desculpam-lhe, por exemplo, ter mandado prender o líder da oposição esta semana, ter reprimido violentamente manifestações contra o aumento dos preços dos combustíveis e alimentos, e perdoam mesmo o facto de o Uganda ser um dos países onde o crescente tráfico de crianças se mantém impune. Só nos últimos quatro anos desapareceram mais de 9 mil crianças.
O facto de ter mudado a Constituição por forma a poder ser eleito tantas vezes quantas quiser também não conta.
O Uganda mandou tropas combater na República Democrática do Congo durante a guerra civil e ainda hoje está envolvido em acções de desestabilização.
Joseph Kony é um guerrilheiro acusado de crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional – e assim ganhou o estatuto de terrorista. De facto, desde 1986, Kony é responsável pelo rapto de mais de 60 mil crianças que força a serem combatentes e responde também pelos cerca de dois milhões de deslocados pela guerra no país.
Mas Kony não quer propriamente libertar o Uganda do regime de Museveni – antes quer estabelecer um regime com base nos 10 mandamentos cristãos, ou seja, um estado teocrático, onde a religião se transforma em lei.
Compreende-se, portanto, que Joseph Kony é cristão, embora tenha uma prática que arrepia a maioria dos cristãos: este antigo menino de coro na igreja católica tem agora mais de 60 mulheres.
As semelhanças com o presidente Museveni surgem quando se fala em República Democrática do Congo. O Exército de Resistência do Senhor também se envolveu na guerra civil e continua a desestabilizar o nosso vizinho.
A diferença maior é que os Estados Unidos puseram Joseph Kony na lista negra e, como tal, pode ser combatido de todas as formas – até com o envio de soldados para o Uganda, o que aconteceu esta semana.
O envio das tropas ocorre após a aprovação, no ano passado, de leis contra o Exército de Resistência do Senhor e o seu líder.
Daqui a nada vamos dar mais pormenores sobre essa presença norte-americana no Uganda.
O presidente americano, Barack Obama, anunciou na semana passada o envio de 100 soldados para o Uganda. Um primeiro grupo já chegou ao terreno, a maior parte deverá chegar no próximo mês.
Numa comunicação ao Congresso norte-americano, o presidente Obama disse que as forças especiais "agirão como assessoras de tropas amigas, com o objectivo de eliminar do palco de batalha Joseph Kony e outros líderes do LRA". Apesar de lhes chamar assessores que vão dar “informações, conselhos e assistência”, Obama garantiu "as forças americanas estão equipadas para o combate”.
O presidente não esconde que estes soldados poderão alargar a sua acção a outros territórios onde o Exército de Resistência do Senhor actua, nomeadamente no Sudão do Sul, República Centro Africana e República Democrática do Congo.
Portanto, o objectivo anunciado é combater Joseph Kony e os seus guerrilheiros, embora nenhum observador da política internacional acredite na bondade norte-americana sem a relacionar com interesses estratégicos – económicos e militares.
Os interesses económicos prendem-se sobretudo com a existência, como já referimos, de importantes reservas de petróleo no Uganda. Os militares com o desejo norte-americano de ter uma base militar em solo africano.
As razões económicas foram determinantes na decisão dos Estados Unidos mandarem tropas para o Uganda. Não que os norte-americanos assumam isso. Como já dissemos, os militares são chamados de assessores. Mas quem tem memória sabe que também para o Vietname os primeiros soldados enviados eram chamados de assessores.
Então por que razão enviaram as tropas? Por razões económicas e interesses militares, como já se disse. Como isto não pode ser dito assim, e como é hábito, diz-se que as razões são humanitárias – e aí a existência do Exército de Resistência do Senhor é muito conveniente.
A presença chinesa na região não agrada ao Ocidente, como se sabe. A China, para sustentar o crescimento e industrialização ao ritmo a que tem andado, necessita de minerais e combustíveis que tem vindo buscar a África. No caso do Uganda, os Estados Unidos não querem perder a corrida, outra vez.
Nesta competição, a China está à frente. Índia, Austrália, África do Sul e Rússia arrancaram também da primeira linha. A Rússia, por exemplo, acaba de criar uma nova refinaria de ouro em Kampala.
A Heritage Oil, uma companhia de prospecção de petróleo, diz que o Uganda tem reservas de petróleo em quantidades consideráveis – milhares de milhões de barris. A maior descoberta on shore, isto é, em terra, no continente africano. As riquezas minerais também são apetecíveis.
O Ocidente quer garantir que todos este petróleo não vai para a China nem para mais lado nenhum a não ser Estados Unidos e Europa.
Sabendo-se que o Uganda não tem mar, terá que ser construído, pelo menos, um oleoduto. Há já planos para a construção de um pipeline com mil e 200 quilómetros ligando Kampala, no Uganda, à costa do Quénia. O valor do investimento é de mil e 500 milhões de dólares.
Como entretanto o Sudão do Sul se tornou independente, num outro processo a que se chamou de libertação, há também intenções de construir um gasoduto nessa direcção.
No aspecto militar, há muito tempo que os Estados Unidos querem ter uma base militar na África Central, como tem na Europa Central.
Neste momento o Uganda tem todas as condições para acolher o equipamento militar.
A lógica é simples: os Estados Unidos têm no terreno militares para combater terroristas; isso leva à necessidade de uma pequena base militar; à medida que terroristas forem presos, há necessidade de os ter numa prisão: assim já chegámos a qualquer coisa parecido com Guantanamo.
Depois haverá os já referidos gasoduto e oleoduto – para o Quénia e para o Sudão do Sul. Haverá, obviamente, a necessidade de justificar a segurança destas estruturas. Logo, mais tropas serão necessárias e a base militar ganhará outras proporções.
Tudo isto será possível sem grandes embaraços, uma vez que o governo de Kampala mantém um registo de repressão considerável, como acordo dos Estados Unidos, que ainda recentemente enviaram 45 milhões de dólares em equipamento militar para o Uganda.
O cenário começa, então a ficar completo e as habituais razões humanitárias que justificam o envio de tropas ocidentais para combater noutros países ganham outros ângulos.
O Uganda tem, pois, todas as condições para, a coberto de uma intervenção inicialmente destinada a combater uns lunáticos criminosos que cometem atrocidades em nome de Cristo, passo a passo, tornar-se o local onde os Estados Unidos irão instalar a tão desejada base militar que irá constituir-se no Comando Africano do Pentágono em solo continental.
São de esperar movimentações dos países vizinhos e de organizações internacionais como a União Africana nos próximos tempos.
O presidente ugandês Yoweri Museveni só não é conhecido do mundo porque não interessa aos Estados Unidos, uma vez que as práticas de governo, o respeito pelos direitos humanos, e os outros temas que fazem cair em desgraça deixam muito a desejar.
O critério para se ser bom ou mau, aos olhos dos Estados Unidos, depende apenas dos interesses militares e económicos.
Chama-se a isto real politic.
O Uganda é o tema principal do programa de hoje. Um país que agora chama a atenção porque tem no território militares norte-americanos para apoiar um governo corrupto numa guerra contra um messias com sessenta mulheres.
No Uganda a política mistura-se com religião e armas. Há dois actores principais neste processo: o presidente Yoweri Museveni e o líder do Exército de Resistência do Senhor, Joseph Kony.
O presidente Museveni já foi, em tempos, um guerrilheiro: liderava o Movimento Nacional de Resistência que se opunha às forças de Milton Obote, depois de este ter regressado ao poder quando derrubou Idi Amin, que por sua vez já tinha derrubado o mesmo Obote.
Assim, de 1971, quando Idi Amin sobe ao poder, até 1986, quando o actual presidente Museveni assumiu o cargo, estima-se que mais de meio milhão de pessoas tenham sido mortas pelo poder instituído.
Yoweri Museveni fez o que o Ocidente gosta: acordos com o Fundo Monetário Internacional, reformas no Estado adaptando-o ao estilo ocidental, abertura da economia ao capital estrangeiro e anunciou medidas no sentido das chamadas reformas democráticas.
Neste período que se descobrem grandes reservas de petróleo e gás no Uganda.
Hoje, bem visto pelo Ocidente, desculpam-lhe, por exemplo, ter mandado prender o líder da oposição esta semana, ter reprimido violentamente manifestações contra o aumento dos preços dos combustíveis e alimentos, e perdoam mesmo o facto de o Uganda ser um dos países onde o crescente tráfico de crianças se mantém impune. Só nos últimos quatro anos desapareceram mais de 9 mil crianças.
O facto de ter mudado a Constituição por forma a poder ser eleito tantas vezes quantas quiser também não conta.
O Uganda mandou tropas combater na República Democrática do Congo durante a guerra civil e ainda hoje está envolvido em acções de desestabilização.
Joseph Kony é um guerrilheiro acusado de crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional – e assim ganhou o estatuto de terrorista. De facto, desde 1986, Kony é responsável pelo rapto de mais de 60 mil crianças que força a serem combatentes e responde também pelos cerca de dois milhões de deslocados pela guerra no país.
Mas Kony não quer propriamente libertar o Uganda do regime de Museveni – antes quer estabelecer um regime com base nos 10 mandamentos cristãos, ou seja, um estado teocrático, onde a religião se transforma em lei.
Compreende-se, portanto, que Joseph Kony é cristão, embora tenha uma prática que arrepia a maioria dos cristãos: este antigo menino de coro na igreja católica tem agora mais de 60 mulheres.
As semelhanças com o presidente Museveni surgem quando se fala em República Democrática do Congo. O Exército de Resistência do Senhor também se envolveu na guerra civil e continua a desestabilizar o nosso vizinho.
A diferença maior é que os Estados Unidos puseram Joseph Kony na lista negra e, como tal, pode ser combatido de todas as formas – até com o envio de soldados para o Uganda, o que aconteceu esta semana.
O envio das tropas ocorre após a aprovação, no ano passado, de leis contra o Exército de Resistência do Senhor e o seu líder.
Daqui a nada vamos dar mais pormenores sobre essa presença norte-americana no Uganda.
O presidente americano, Barack Obama, anunciou na semana passada o envio de 100 soldados para o Uganda. Um primeiro grupo já chegou ao terreno, a maior parte deverá chegar no próximo mês.
Numa comunicação ao Congresso norte-americano, o presidente Obama disse que as forças especiais "agirão como assessoras de tropas amigas, com o objectivo de eliminar do palco de batalha Joseph Kony e outros líderes do LRA". Apesar de lhes chamar assessores que vão dar “informações, conselhos e assistência”, Obama garantiu "as forças americanas estão equipadas para o combate”.
O presidente não esconde que estes soldados poderão alargar a sua acção a outros territórios onde o Exército de Resistência do Senhor actua, nomeadamente no Sudão do Sul, República Centro Africana e República Democrática do Congo.
Portanto, o objectivo anunciado é combater Joseph Kony e os seus guerrilheiros, embora nenhum observador da política internacional acredite na bondade norte-americana sem a relacionar com interesses estratégicos – económicos e militares.
Os interesses económicos prendem-se sobretudo com a existência, como já referimos, de importantes reservas de petróleo no Uganda. Os militares com o desejo norte-americano de ter uma base militar em solo africano.
As razões económicas foram determinantes na decisão dos Estados Unidos mandarem tropas para o Uganda. Não que os norte-americanos assumam isso. Como já dissemos, os militares são chamados de assessores. Mas quem tem memória sabe que também para o Vietname os primeiros soldados enviados eram chamados de assessores.
Então por que razão enviaram as tropas? Por razões económicas e interesses militares, como já se disse. Como isto não pode ser dito assim, e como é hábito, diz-se que as razões são humanitárias – e aí a existência do Exército de Resistência do Senhor é muito conveniente.
A presença chinesa na região não agrada ao Ocidente, como se sabe. A China, para sustentar o crescimento e industrialização ao ritmo a que tem andado, necessita de minerais e combustíveis que tem vindo buscar a África. No caso do Uganda, os Estados Unidos não querem perder a corrida, outra vez.
Nesta competição, a China está à frente. Índia, Austrália, África do Sul e Rússia arrancaram também da primeira linha. A Rússia, por exemplo, acaba de criar uma nova refinaria de ouro em Kampala.
A Heritage Oil, uma companhia de prospecção de petróleo, diz que o Uganda tem reservas de petróleo em quantidades consideráveis – milhares de milhões de barris. A maior descoberta on shore, isto é, em terra, no continente africano. As riquezas minerais também são apetecíveis.
O Ocidente quer garantir que todos este petróleo não vai para a China nem para mais lado nenhum a não ser Estados Unidos e Europa.
Sabendo-se que o Uganda não tem mar, terá que ser construído, pelo menos, um oleoduto. Há já planos para a construção de um pipeline com mil e 200 quilómetros ligando Kampala, no Uganda, à costa do Quénia. O valor do investimento é de mil e 500 milhões de dólares.
Como entretanto o Sudão do Sul se tornou independente, num outro processo a que se chamou de libertação, há também intenções de construir um gasoduto nessa direcção.
No aspecto militar, há muito tempo que os Estados Unidos querem ter uma base militar na África Central, como tem na Europa Central.
Neste momento o Uganda tem todas as condições para acolher o equipamento militar.
A lógica é simples: os Estados Unidos têm no terreno militares para combater terroristas; isso leva à necessidade de uma pequena base militar; à medida que terroristas forem presos, há necessidade de os ter numa prisão: assim já chegámos a qualquer coisa parecido com Guantanamo.
Depois haverá os já referidos gasoduto e oleoduto – para o Quénia e para o Sudão do Sul. Haverá, obviamente, a necessidade de justificar a segurança destas estruturas. Logo, mais tropas serão necessárias e a base militar ganhará outras proporções.
Tudo isto será possível sem grandes embaraços, uma vez que o governo de Kampala mantém um registo de repressão considerável, como acordo dos Estados Unidos, que ainda recentemente enviaram 45 milhões de dólares em equipamento militar para o Uganda.
O cenário começa, então a ficar completo e as habituais razões humanitárias que justificam o envio de tropas ocidentais para combater noutros países ganham outros ângulos.
O Uganda tem, pois, todas as condições para, a coberto de uma intervenção inicialmente destinada a combater uns lunáticos criminosos que cometem atrocidades em nome de Cristo, passo a passo, tornar-se o local onde os Estados Unidos irão instalar a tão desejada base militar que irá constituir-se no Comando Africano do Pentágono em solo continental.
São de esperar movimentações dos países vizinhos e de organizações internacionais como a União Africana nos próximos tempos.
5 de mar. de 2012
Madagáscar
Hoje vamos focar a atenção no Madagáscar, uma vez que o jornal francês Le Monde Diplomatique publica na última edição um trabalho onde deixa clara as responsabilidades da França na situação política malgaxe, marcada, como se sabe, pela ilegalidade constitucional – que levou, de resto, à suspensão do país da SADC.
Já neste programa fizemos referência a factos que demonstram a falta de vontade do presidente Andry Rajoelina em pôr em prática o plano acordado com a SADC para restaurar a ordem constitucional no país.
Rajoelina tomou o poder, com o apoio dos militares, há precisamente três anos – em Março de 2009. O presidente deposto, Marc Ravalomanana, está exilado na África do Sul desde então.
Do plano acordado com a SADC contava a criação de um governo de transição, onde teriam lugar os partidos da oposição, até à realização de eleições.
A Constituição malgaxe foi entretanto revista, para ser introduzida uma alteração à idade mínima para as candidaturas à Presidência da República, por forma a permitir que Andry Rajoelina se possa candidatar.
Mas um dos pontos fundamentais do plano, o regresso do presidente deposto ao país, não tem sido cumprido por responsabilidade de Rajoelina.
O presidente de transição no Madagáscar enfrenta um crescente descontentamento entre os seus apoiantes mais próximos, por se estar a afastar do plano da SADC que visa fazer regressar o país às regras democráticas.
Um dos exemplos de como Rajoelina está a tentar enterrar o plano da SADC foi a proibição de entrada no país do presidente deposto, Marc Ravalomanana.
No fim de Janeiro, Ravalomanana chegou a entrar no espaço aéreo do Madagáscar, mas as autoridades trataram de mandar encerrar os aeroportos, por forma a que o avião que transportava o presidente deposto não pudesse aterrar.
Milhares de apoiantes de Ravalomanana, que o aguardavam, acabaram profundamente desapontados, enquanto as autoridades judiciais diziam que uma ordem de prisão que pende sobre o ex-presidente ainda está em vigor.
Ravalomanana foi condenado à revelia por responsabilidade na morte de manifestantes, durante os protestos contra as condições de vida que acabaram com a intervenção dos militares, que fizeram Rajoelina ascender ao poder.
O governo de Rajoelina, que se tinha comprometido a aprovar uma amnistia para todos os acontecimentos políticos ocorridos entre 2002 e 2009 como parte do plano de normalização da vida política do país, contudo, ainda não deu esse passo.
Neste cenário, teme-se que um eventual regresso de Ravalomanana a Madagáscar seja motivo de maior instabilidade para o país.
Como se disse, esta estratégia que visa afastar-se do caminho acordado com a SADC, tem o cunho do governo francês. Esse facto é agora sustentado, como se disse, por um artigo do Le Monde Diplomatique.
A visita oficial que o presidente da Alta Autoridade de Transição do Madagáscar, Andry Rajoelina, a 8 de Dezembro do ano passado fez a França é entendida como a confirmação da parcialidade do governo de Nicolas Sarkozy no processo que impede a normalização política no país.
A hostilidade francesa em relação a Ravalomanana vem de longe. A França apoiou o ex-presidente malgaxe Didier Ratsiraka, durante o conflito que assolou o país após eleições presidenciais em 2002. Após meses de disputas, Ravalomanana é declarado vencedor pelo Tribunal Constitucional e Ratsiraka decide exilar-se em França.
Sintomaticamente, Ratsiraka já regressou ao Madagáscar, mas Ravalomanana, o principal opositor político de Rajoelina, ainda não o pôde fazer.
As relações francesas com Ravalomanana nunca foram boas, o que ficou demonstrado pelo facto de Paris ter demorado meses até reconhecerem o presidente legitimamente eleito em 2001.
A França nunca digeriu bem a adesão do Madagáscar à SADC, e muito menos a introdução no país do inglês como terceira língua oficial – decisões que foram tomadas pelo governo de Ravalomanana.
A antiga potência colonial considera que Ravalomanana privilegia demasiado as relações com os Estados Unidos, a Alemanha e a China – isto é oficial e pode ser lido no site na internet do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês.
O problema fundamental é que Ravalomanana adoptou políticas económicas neo-liberais que não foram do agrado dos interesses das muitas empresas francesas instaladas no Madagáscar.
Exemplo disso ocorreu com a privatização do porto de mar em Toamasina, que a empresa francesa Bolloré perdeu para uma concorrente das Filipinas. Há outros exemplos de pressão do governo francês para que empresas como a petrolífera Total ou outras multinacionais obtivessem benefícios, como sempre estiveram habituadas desde que o Madagáscar ascendeu à independência, em 1960.
Além dos aspectos económicos há também factos políticos, no campo diplomático, que atestam as más relações da França com Ravalomanana.
Em Julho de 2008 o embaixador francês em Antananarivo, Gildas Le Lidec, abandonou o posto escassos seis meses após ter assumido o cargo.
Já após Ravalomanana ter sido deposto, o director para África do Ministério Francês dos Negócios Estrangeiros, falando a uma comissão parlamentar sobre o episódio, não teve pejo em afirmar que se o embaixador tivesse permanecido no posto e Ravalomanana escutado os seus conselhos, muito provavelmente ainda seria presidente do Madagáscar.
A ingerência francesa na política malgaxe é bem conhecida da população e é regularmente objecto de comentários e protestos durante manifestações populares, por vezes acompanhadas de ameaças físicas que, no entanto, nunca se chegaram a concretizar.
Registe-se que vivem cerca de 25 mil cidadãos franceses no Madagáscar, 13 mil deles com dupla nacionalidade.
As responsabilidades da França na situação anómala que o Madagáscar vive são atestadas, também, por afirmações do embaixador norte-americano em Antananarivo, que foram dadas a conhecer pela organização Wikileaks – mensagens secretas interceptadas e divulgadas no ano passado.
O embaixador Niels Marquart informou Washignton de que o representante do Fundo Monetário Internacional no Madagáscar tinha afirmado que a França foi quem pagou as acções de funcionários dos serviços técnicos e administrativos, que desempenharam um papel central no derrube de Ravalomanana. Ainda segundo o diplomata norte-americano, essa opinião era partilhada por outras personalidades e diplomatas que acompanharam o processo.
Apesar de todos esses indícios, não é fácil provar que foi a França quem esteve, de facto, por trás do golpe de Estado que derrubou Ravalomanana. Mas a proximidade com o actual presidente Rajoelina, essa, é mais que evidente.
Logo em Junho de 2009 o grupo francês Accor inaugurou com pompa e circunstância um hotel na capital malgaxe. Foi a altura em que se pôde constatar a presença de uma série de figuras ligadas à definição das políticas do presidente Nicolas Sarkozy para África e homens-de-mão malgaxes. Um ambiente festivo onde o governo francês se fez representar em clima ameno, mas em contraste com as afirmações de Sarkozy, que em público chamou “golpe de Estado” aos acontecimentos ocorridos apenas alguns meses antes e criticou a supressão do parlamento.
Além das responsabilidades francesas nos acontecimentos que levaram à intervenção militar que depôs Marc Ravalomanana, as acções de Paris prolongaram-se até mesmo às negociações conduzidas pela SADC com vista à normalização da vida política no país.
As interferências, sempre com o objectivo de proteger Andry Rajoelina, levaram a que o antigo Ministro das Relações Exteriores de Moçambique e membro da comissão da SADC que negociou o acordo afirmasse, sem rodeios, que a “ingerência francesa nos assuntos malgaxes são equivalentes a um quási-colonialismo”.
É, pois, neste cenário que se desenrola a vida política no Madagáscar.
Segundo o plano elaborado pela SADC – e, como se viu, boicotado pela França – neste mês de Março deveriam realizar-se eleições no Madagáscar, o que não deverá acontecer.
A essas eleições, no actual cenário, Andry Rajoelina deverá candidatar-se com o apoio francês.
Esse é, no entanto, o plano acordado com a SADC, que não é do agrado francês. Além do mais, sabe-se que há interesses divergentes mesmo dentro do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros, onde a figura de Rajoelina não é consensual.
Por isso não deverá surpreender ninguém que Rajoelina perca, de um momento para o outro, o apoio francês, e surja uma outra figura entre os amigos dos franceses para resolver a crise.
Naturalmente, desde que Marc Ravalomanana permaneça como uma carta fora do baralho.
(Adaptado do programa da Rádio Namibe "Pico do Kilimanjaro", 04/03/2012)
Já neste programa fizemos referência a factos que demonstram a falta de vontade do presidente Andry Rajoelina em pôr em prática o plano acordado com a SADC para restaurar a ordem constitucional no país.
Rajoelina tomou o poder, com o apoio dos militares, há precisamente três anos – em Março de 2009. O presidente deposto, Marc Ravalomanana, está exilado na África do Sul desde então.
Do plano acordado com a SADC contava a criação de um governo de transição, onde teriam lugar os partidos da oposição, até à realização de eleições.
A Constituição malgaxe foi entretanto revista, para ser introduzida uma alteração à idade mínima para as candidaturas à Presidência da República, por forma a permitir que Andry Rajoelina se possa candidatar.
Mas um dos pontos fundamentais do plano, o regresso do presidente deposto ao país, não tem sido cumprido por responsabilidade de Rajoelina.
O presidente de transição no Madagáscar enfrenta um crescente descontentamento entre os seus apoiantes mais próximos, por se estar a afastar do plano da SADC que visa fazer regressar o país às regras democráticas.
Um dos exemplos de como Rajoelina está a tentar enterrar o plano da SADC foi a proibição de entrada no país do presidente deposto, Marc Ravalomanana.
No fim de Janeiro, Ravalomanana chegou a entrar no espaço aéreo do Madagáscar, mas as autoridades trataram de mandar encerrar os aeroportos, por forma a que o avião que transportava o presidente deposto não pudesse aterrar.
Milhares de apoiantes de Ravalomanana, que o aguardavam, acabaram profundamente desapontados, enquanto as autoridades judiciais diziam que uma ordem de prisão que pende sobre o ex-presidente ainda está em vigor.
Ravalomanana foi condenado à revelia por responsabilidade na morte de manifestantes, durante os protestos contra as condições de vida que acabaram com a intervenção dos militares, que fizeram Rajoelina ascender ao poder.
O governo de Rajoelina, que se tinha comprometido a aprovar uma amnistia para todos os acontecimentos políticos ocorridos entre 2002 e 2009 como parte do plano de normalização da vida política do país, contudo, ainda não deu esse passo.
Neste cenário, teme-se que um eventual regresso de Ravalomanana a Madagáscar seja motivo de maior instabilidade para o país.
Como se disse, esta estratégia que visa afastar-se do caminho acordado com a SADC, tem o cunho do governo francês. Esse facto é agora sustentado, como se disse, por um artigo do Le Monde Diplomatique.
A visita oficial que o presidente da Alta Autoridade de Transição do Madagáscar, Andry Rajoelina, a 8 de Dezembro do ano passado fez a França é entendida como a confirmação da parcialidade do governo de Nicolas Sarkozy no processo que impede a normalização política no país.
A hostilidade francesa em relação a Ravalomanana vem de longe. A França apoiou o ex-presidente malgaxe Didier Ratsiraka, durante o conflito que assolou o país após eleições presidenciais em 2002. Após meses de disputas, Ravalomanana é declarado vencedor pelo Tribunal Constitucional e Ratsiraka decide exilar-se em França.
Sintomaticamente, Ratsiraka já regressou ao Madagáscar, mas Ravalomanana, o principal opositor político de Rajoelina, ainda não o pôde fazer.
As relações francesas com Ravalomanana nunca foram boas, o que ficou demonstrado pelo facto de Paris ter demorado meses até reconhecerem o presidente legitimamente eleito em 2001.
A França nunca digeriu bem a adesão do Madagáscar à SADC, e muito menos a introdução no país do inglês como terceira língua oficial – decisões que foram tomadas pelo governo de Ravalomanana.
A antiga potência colonial considera que Ravalomanana privilegia demasiado as relações com os Estados Unidos, a Alemanha e a China – isto é oficial e pode ser lido no site na internet do Ministério dos Negócios Estrangeiros francês.
O problema fundamental é que Ravalomanana adoptou políticas económicas neo-liberais que não foram do agrado dos interesses das muitas empresas francesas instaladas no Madagáscar.
Exemplo disso ocorreu com a privatização do porto de mar em Toamasina, que a empresa francesa Bolloré perdeu para uma concorrente das Filipinas. Há outros exemplos de pressão do governo francês para que empresas como a petrolífera Total ou outras multinacionais obtivessem benefícios, como sempre estiveram habituadas desde que o Madagáscar ascendeu à independência, em 1960.
Além dos aspectos económicos há também factos políticos, no campo diplomático, que atestam as más relações da França com Ravalomanana.
Em Julho de 2008 o embaixador francês em Antananarivo, Gildas Le Lidec, abandonou o posto escassos seis meses após ter assumido o cargo.
Já após Ravalomanana ter sido deposto, o director para África do Ministério Francês dos Negócios Estrangeiros, falando a uma comissão parlamentar sobre o episódio, não teve pejo em afirmar que se o embaixador tivesse permanecido no posto e Ravalomanana escutado os seus conselhos, muito provavelmente ainda seria presidente do Madagáscar.
A ingerência francesa na política malgaxe é bem conhecida da população e é regularmente objecto de comentários e protestos durante manifestações populares, por vezes acompanhadas de ameaças físicas que, no entanto, nunca se chegaram a concretizar.
Registe-se que vivem cerca de 25 mil cidadãos franceses no Madagáscar, 13 mil deles com dupla nacionalidade.
As responsabilidades da França na situação anómala que o Madagáscar vive são atestadas, também, por afirmações do embaixador norte-americano em Antananarivo, que foram dadas a conhecer pela organização Wikileaks – mensagens secretas interceptadas e divulgadas no ano passado.
O embaixador Niels Marquart informou Washignton de que o representante do Fundo Monetário Internacional no Madagáscar tinha afirmado que a França foi quem pagou as acções de funcionários dos serviços técnicos e administrativos, que desempenharam um papel central no derrube de Ravalomanana. Ainda segundo o diplomata norte-americano, essa opinião era partilhada por outras personalidades e diplomatas que acompanharam o processo.
Apesar de todos esses indícios, não é fácil provar que foi a França quem esteve, de facto, por trás do golpe de Estado que derrubou Ravalomanana. Mas a proximidade com o actual presidente Rajoelina, essa, é mais que evidente.
Logo em Junho de 2009 o grupo francês Accor inaugurou com pompa e circunstância um hotel na capital malgaxe. Foi a altura em que se pôde constatar a presença de uma série de figuras ligadas à definição das políticas do presidente Nicolas Sarkozy para África e homens-de-mão malgaxes. Um ambiente festivo onde o governo francês se fez representar em clima ameno, mas em contraste com as afirmações de Sarkozy, que em público chamou “golpe de Estado” aos acontecimentos ocorridos apenas alguns meses antes e criticou a supressão do parlamento.
Além das responsabilidades francesas nos acontecimentos que levaram à intervenção militar que depôs Marc Ravalomanana, as acções de Paris prolongaram-se até mesmo às negociações conduzidas pela SADC com vista à normalização da vida política no país.
As interferências, sempre com o objectivo de proteger Andry Rajoelina, levaram a que o antigo Ministro das Relações Exteriores de Moçambique e membro da comissão da SADC que negociou o acordo afirmasse, sem rodeios, que a “ingerência francesa nos assuntos malgaxes são equivalentes a um quási-colonialismo”.
É, pois, neste cenário que se desenrola a vida política no Madagáscar.
Segundo o plano elaborado pela SADC – e, como se viu, boicotado pela França – neste mês de Março deveriam realizar-se eleições no Madagáscar, o que não deverá acontecer.
A essas eleições, no actual cenário, Andry Rajoelina deverá candidatar-se com o apoio francês.
Esse é, no entanto, o plano acordado com a SADC, que não é do agrado francês. Além do mais, sabe-se que há interesses divergentes mesmo dentro do Ministério francês dos Negócios Estrangeiros, onde a figura de Rajoelina não é consensual.
Por isso não deverá surpreender ninguém que Rajoelina perca, de um momento para o outro, o apoio francês, e surja uma outra figura entre os amigos dos franceses para resolver a crise.
Naturalmente, desde que Marc Ravalomanana permaneça como uma carta fora do baralho.
(Adaptado do programa da Rádio Namibe "Pico do Kilimanjaro", 04/03/2012)
A Conferência de Londres sobre a Somália
A Somália foi objecto de uma conferência que teve lugar em Londres. Há razões de sobra para encarar com cepticismo a iniciativa – desde logo porque já se realizaram quase duas dezenas de conferências internacionais com o mesmo objectivo, sem que isso tenha significado melhorias na situação somali. De facto, há 20 anos que o país não tem um governo nacional e as intervenções militares estrangeiras, ainda que em apoio ao executivo reconhecido internacionalmente, nunca lograram vencer os rebeldes que ainda controlam a maior parte do território somali.
Cepticismo, também, do ponto de vista humanitário, uma vez que as decisões saídas de Londres visam sobretudo questões de segurança. Relativamente à ajuda humanitária, o comunicado final diz que se irá agora “coordenar melhor” e passar a prestar maior atenção às necessidades de longo prazo.
Enquanto a conferência decorria, Melanie Teff, responsável da organização humanitária Refugees International, lembrava que neste momento, depois de ter começado a chover, “apesar de a situação de fome estar declarada oficialmente extinta, milhões de somalis experimentam uma aguda falta de alimentos, abrigo e cuidados de saúde. E, uma vez que passaram os últimos a fugir à seca e às milícias em vez de a lançar sementes à terra e a criar gado, a situação alimentar é precária”.
Registe-se que a Refugees International é uma organização que não recebe fundos nem de governos nem das Nações Unidas.
Ainda relativamente à situação humanitária, nem a coordenadora do Programa de Emergência das Nações Unidas aceitou participar na conferência. Efectivamente, a actual tendência para utilizar ajuda humanitária com objectivos políticos ou militares levou a que Amos participasse numa conferência paralela, por forma a separar bem os dois problemas.
O facto de a conferência se ter realizado na Europa, por iniciativa de um governo europeu (no caso o inglês) e com a participação activa dos Estados Unidos, revela a preocupação da comunidade internacional com a situação na Somália. Mas a preocupação é mais com os interesses que os países ocidentais têm na região do que com a vida que a população somali tem.
A presença, cada vez mais notória, da Turquia, é bem um exemplo de como há interesses divergentes no país, que levaram a Inglaterra a avançar para esta iniciativa.
Tome-se como exemplo de partida o caso da pirataria que surge constantemente na comunicação social, mas de que não se explicam as causas. Estima-se que os actos de pirataria na costa da Somália cause prejuízos de cerca de 7 mil milhões de dólares por ano, valor em que estão incluídos os resgates pagos pelos donos dos navios para recuperarem carga e tripulações sequestradas.
Sabe-se também que a NATO e outros países têm navios de guerra na zona, que de vez em quando prendem uns jovens quando estes tentam capturar grandes navios.
O que fica por dizer, e isso não foi tratado na conferência de Londres, é que esses jovens não são mais do que os operativos de missões comandadas por aqueles que, de facto, enriquecem com a pirataria – e esses não só não estão na Somália, como nunca são presos. Aliás, especialistas na matéria duvidam que alguma vez sejam detidos e muito mais que fiquem em prisão. Esta é uma indústria comandada provavelmente a partir de países vizinhos ou mesmo europeus, que usa jovens desempregados como mão-de-obra.
Acresce dizer que os jovens, no passado, eram pescadores na região semi-autónoma de Puntland, o extremo do Corno de África, que deixaram de poder exercer aquela actividade porque navios de pesca europeus dizimaram o peixe existente na região e, ainda por cima, contaminaram as águas com lixo tóxico.
Há a possibilidade, já ensaiada na cidade de Eyl, de envolver os próprios somalis no combate aos piratas. Mas o resultado pode ser pior: provavelmente, o que aconteceria é que os piratas começariam a actuar a partir de zonas controladas pelos rebeldes islamitas da al-Shabab, contribuindo assim para financiar aquele movimento. Tendo em conta que a al-Shabab decidiu recentemente integrar-se na al-Qaeda, isso não parece ser do interesse do Ocidente nem do governo de Mogadíscio.
A conferência de Londres sobre a Somália foi a mais concorrida de sempre: foram 55 países e organizações participantes, incluindo quatro presidentes somalis – o da Somália, os das regiões relativamente estáveis a Norte, e o da auto-proclamada independente Somalilândia. A al-Shabab, que controla vastas áreas do país, não foi convidada para o encontro.
Estes factos revelam como a Somália se está a desintegrar. De resto, nos últimos dias antes da conferência, sucederam-se as proclamações de novos Estados dentro do Estado, no que é entendido como uma forma de posicionamento dos líderes locais para a partilha dos fundos que se esperam. A Inglaterra já prometeu 32 milhões de dólares, e aguarda-se pelos valores a disponibilizar pelos Emiratos Árabes Unidos e países escandivavos, que anunciaram ir também doar verbas para o chamado “Fundo de Estabilidade”.
Ou seja, como no passado, as elites somalis irão beneficiar das ajudas, enquanto o país continua a senda de exemplo maior do Estado falhado.
As dúvidas sobre a utilidade da conferência foram resumidas pela analista da BBC para a Somália, Mary Harper – ela própria uma britânica. Logo no início do artigo que publicou, explica: “Agora que os líderes mundiais deixaram Lancaster House nas suas brilhantes limusines pretas, tudo o que nos deixaram foram duas folhas de papel, impressas dos dois lados”.
As preocupações centram-se, sobretudo, na contradição entre o que o comunicado final começa por dizer – que as decisões sobre a Somália ficam com o povo somali – e as medidas que são propostas. Estas põem nas mãos de entidades estrangeiras o controlo do fundamental da vida do país.
Desde logo será um Grupo Conjunto de Gestão Financeira a controlar a “transparência e responsabilidade na recolha e uso eficiente de fundos públicos, bem como de ajuda internacional”. Ou seja, até o orçamento da Somália será controlado por estrangeiros.
Também do ponto de vista político, a conferência decidiu que, após o governo de transição terminar funções, em Agosto, o poder será transferido para uma “administração inclusiva”. Isto significa que, na prática, o próximo será apenas o 16º governo de transição desde 1991.
Este que irá cessar funções não conseguiu cumprir os objectivos de aprovar uma nova Constituição e organizar eleições.
Em matéria de justiça, o combate à pirataria vai centrar-se na obtenção de acordos para levar os suspeitos a tribunal fora da Somália e mesmo a coordenação dos esforços deverá ser feita a partir das Seicheles.
Nas questões militares, ainda antes da conferência, o Conselho de Segurança das Nações Unidas tinha decidido aumentar de 12 mil para mais de 17 mil o número de soldados da AMISOM, o contingente da força de manutenção de paz da União Africana no país – soldados que são, naturalmente, estrageiros.
Há uma conclusão a tirar da contradição notada antes: o fundamental do que se pretende fazer na Somália nos próximos tempos será da responsabilidade de actores externos, pelo que a afirmação de serem os Somalis a decidirem o seu futuro é, apenas, um exercício de retórica.
Na intervenção que fez, a secretária de Estado norte-americana, Hilary Clinton, não deixou espaço a dúvidas, ao afirmar que negociações com a al-Shabab estavam fora de questão e que não queria mais governos de transição.
No terreno, e face ao caos que se vive durante os últimos 20 anos, as expectativas são grandes. O que se espera é a implementação do que foi decidido. Caso contrário, o que se pode esperar é mais desapontamento e, consequentemente, mais radicalização e hostilidade.
Do ponto de vista militar houve duas alterações substancias na Somália: o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou o aumento em 5 mil do número de soldados da Missão de Paz da União Africana, onde se deverão integrar as tropas quenianas que entraram na Somália no final do ano passado.
Entretanto, tropas etíopes e somalis tomavam a importante cidade de Baidoa, no Sul do país.
Baidoa era considerada uma das mais importantes bases da al-Shabab. Além de ser a terra natal de um dos principais líderes do movimento islamita, Abu Mansoor, era também onde o grupo recrutava muitos dos seus membros.
Trata-se da maior cidade da região de Bay e é considerada uma importante perda para os islamitas. Isto porque se trata de uma localidade situada ao longo da estrada que liga a capital Mogadíscio ao sudoeste do país, bem como ao Quénia e Etiópia. É também um entreposto de mercadorias em transporte para outras cidades, e possui um aeroporto, que se acredita era utlizado pela al-Shabab para introduzir armas no país.
Baidoa foi tomada sem que se disparasse um único tiro – o que os radicais islamitas confirmam, embora asseverem que o governo não terá oportunidade de usufruir da cidade. A al-Shabab promete muito derramamento de sangue.
O facto de não terem sido encontrados insurgentes na cidade não significa que eles não estejam lá, que tenham apenas despido as fardas e se misturado com a população. Por isso o maior desafio das forças somalis e etíopes é evitar os atentados bombistas que a al-Shabab promete.
De resto, e face aos avanços das tropas, os rebeldes anunciaram que irão alterar a estratégia, passando a utilizar prácticas de guerrilha no combate por um Estado islâmico.
(Adaptado do programa da Rádio Namibe "Pico do Kilimanjaro", 25/02/2012)
Cepticismo, também, do ponto de vista humanitário, uma vez que as decisões saídas de Londres visam sobretudo questões de segurança. Relativamente à ajuda humanitária, o comunicado final diz que se irá agora “coordenar melhor” e passar a prestar maior atenção às necessidades de longo prazo.
Enquanto a conferência decorria, Melanie Teff, responsável da organização humanitária Refugees International, lembrava que neste momento, depois de ter começado a chover, “apesar de a situação de fome estar declarada oficialmente extinta, milhões de somalis experimentam uma aguda falta de alimentos, abrigo e cuidados de saúde. E, uma vez que passaram os últimos a fugir à seca e às milícias em vez de a lançar sementes à terra e a criar gado, a situação alimentar é precária”.
Registe-se que a Refugees International é uma organização que não recebe fundos nem de governos nem das Nações Unidas.
Ainda relativamente à situação humanitária, nem a coordenadora do Programa de Emergência das Nações Unidas aceitou participar na conferência. Efectivamente, a actual tendência para utilizar ajuda humanitária com objectivos políticos ou militares levou a que Amos participasse numa conferência paralela, por forma a separar bem os dois problemas.
O facto de a conferência se ter realizado na Europa, por iniciativa de um governo europeu (no caso o inglês) e com a participação activa dos Estados Unidos, revela a preocupação da comunidade internacional com a situação na Somália. Mas a preocupação é mais com os interesses que os países ocidentais têm na região do que com a vida que a população somali tem.
A presença, cada vez mais notória, da Turquia, é bem um exemplo de como há interesses divergentes no país, que levaram a Inglaterra a avançar para esta iniciativa.
Tome-se como exemplo de partida o caso da pirataria que surge constantemente na comunicação social, mas de que não se explicam as causas. Estima-se que os actos de pirataria na costa da Somália cause prejuízos de cerca de 7 mil milhões de dólares por ano, valor em que estão incluídos os resgates pagos pelos donos dos navios para recuperarem carga e tripulações sequestradas.
Sabe-se também que a NATO e outros países têm navios de guerra na zona, que de vez em quando prendem uns jovens quando estes tentam capturar grandes navios.
O que fica por dizer, e isso não foi tratado na conferência de Londres, é que esses jovens não são mais do que os operativos de missões comandadas por aqueles que, de facto, enriquecem com a pirataria – e esses não só não estão na Somália, como nunca são presos. Aliás, especialistas na matéria duvidam que alguma vez sejam detidos e muito mais que fiquem em prisão. Esta é uma indústria comandada provavelmente a partir de países vizinhos ou mesmo europeus, que usa jovens desempregados como mão-de-obra.
Acresce dizer que os jovens, no passado, eram pescadores na região semi-autónoma de Puntland, o extremo do Corno de África, que deixaram de poder exercer aquela actividade porque navios de pesca europeus dizimaram o peixe existente na região e, ainda por cima, contaminaram as águas com lixo tóxico.
Há a possibilidade, já ensaiada na cidade de Eyl, de envolver os próprios somalis no combate aos piratas. Mas o resultado pode ser pior: provavelmente, o que aconteceria é que os piratas começariam a actuar a partir de zonas controladas pelos rebeldes islamitas da al-Shabab, contribuindo assim para financiar aquele movimento. Tendo em conta que a al-Shabab decidiu recentemente integrar-se na al-Qaeda, isso não parece ser do interesse do Ocidente nem do governo de Mogadíscio.
A conferência de Londres sobre a Somália foi a mais concorrida de sempre: foram 55 países e organizações participantes, incluindo quatro presidentes somalis – o da Somália, os das regiões relativamente estáveis a Norte, e o da auto-proclamada independente Somalilândia. A al-Shabab, que controla vastas áreas do país, não foi convidada para o encontro.
Estes factos revelam como a Somália se está a desintegrar. De resto, nos últimos dias antes da conferência, sucederam-se as proclamações de novos Estados dentro do Estado, no que é entendido como uma forma de posicionamento dos líderes locais para a partilha dos fundos que se esperam. A Inglaterra já prometeu 32 milhões de dólares, e aguarda-se pelos valores a disponibilizar pelos Emiratos Árabes Unidos e países escandivavos, que anunciaram ir também doar verbas para o chamado “Fundo de Estabilidade”.
Ou seja, como no passado, as elites somalis irão beneficiar das ajudas, enquanto o país continua a senda de exemplo maior do Estado falhado.
As dúvidas sobre a utilidade da conferência foram resumidas pela analista da BBC para a Somália, Mary Harper – ela própria uma britânica. Logo no início do artigo que publicou, explica: “Agora que os líderes mundiais deixaram Lancaster House nas suas brilhantes limusines pretas, tudo o que nos deixaram foram duas folhas de papel, impressas dos dois lados”.
As preocupações centram-se, sobretudo, na contradição entre o que o comunicado final começa por dizer – que as decisões sobre a Somália ficam com o povo somali – e as medidas que são propostas. Estas põem nas mãos de entidades estrangeiras o controlo do fundamental da vida do país.
Desde logo será um Grupo Conjunto de Gestão Financeira a controlar a “transparência e responsabilidade na recolha e uso eficiente de fundos públicos, bem como de ajuda internacional”. Ou seja, até o orçamento da Somália será controlado por estrangeiros.
Também do ponto de vista político, a conferência decidiu que, após o governo de transição terminar funções, em Agosto, o poder será transferido para uma “administração inclusiva”. Isto significa que, na prática, o próximo será apenas o 16º governo de transição desde 1991.
Este que irá cessar funções não conseguiu cumprir os objectivos de aprovar uma nova Constituição e organizar eleições.
Em matéria de justiça, o combate à pirataria vai centrar-se na obtenção de acordos para levar os suspeitos a tribunal fora da Somália e mesmo a coordenação dos esforços deverá ser feita a partir das Seicheles.
Nas questões militares, ainda antes da conferência, o Conselho de Segurança das Nações Unidas tinha decidido aumentar de 12 mil para mais de 17 mil o número de soldados da AMISOM, o contingente da força de manutenção de paz da União Africana no país – soldados que são, naturalmente, estrageiros.
Há uma conclusão a tirar da contradição notada antes: o fundamental do que se pretende fazer na Somália nos próximos tempos será da responsabilidade de actores externos, pelo que a afirmação de serem os Somalis a decidirem o seu futuro é, apenas, um exercício de retórica.
Na intervenção que fez, a secretária de Estado norte-americana, Hilary Clinton, não deixou espaço a dúvidas, ao afirmar que negociações com a al-Shabab estavam fora de questão e que não queria mais governos de transição.
No terreno, e face ao caos que se vive durante os últimos 20 anos, as expectativas são grandes. O que se espera é a implementação do que foi decidido. Caso contrário, o que se pode esperar é mais desapontamento e, consequentemente, mais radicalização e hostilidade.
Do ponto de vista militar houve duas alterações substancias na Somália: o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou o aumento em 5 mil do número de soldados da Missão de Paz da União Africana, onde se deverão integrar as tropas quenianas que entraram na Somália no final do ano passado.
Entretanto, tropas etíopes e somalis tomavam a importante cidade de Baidoa, no Sul do país.
Baidoa era considerada uma das mais importantes bases da al-Shabab. Além de ser a terra natal de um dos principais líderes do movimento islamita, Abu Mansoor, era também onde o grupo recrutava muitos dos seus membros.
Trata-se da maior cidade da região de Bay e é considerada uma importante perda para os islamitas. Isto porque se trata de uma localidade situada ao longo da estrada que liga a capital Mogadíscio ao sudoeste do país, bem como ao Quénia e Etiópia. É também um entreposto de mercadorias em transporte para outras cidades, e possui um aeroporto, que se acredita era utlizado pela al-Shabab para introduzir armas no país.
Baidoa foi tomada sem que se disparasse um único tiro – o que os radicais islamitas confirmam, embora asseverem que o governo não terá oportunidade de usufruir da cidade. A al-Shabab promete muito derramamento de sangue.
O facto de não terem sido encontrados insurgentes na cidade não significa que eles não estejam lá, que tenham apenas despido as fardas e se misturado com a população. Por isso o maior desafio das forças somalis e etíopes é evitar os atentados bombistas que a al-Shabab promete.
De resto, e face aos avanços das tropas, os rebeldes anunciaram que irão alterar a estratégia, passando a utilizar prácticas de guerrilha no combate por um Estado islâmico.
(Adaptado do programa da Rádio Namibe "Pico do Kilimanjaro", 25/02/2012)
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