Março é um mês determinante na história recente do Mali e para Amadou Touré.
A 22 de Março, intervenções repressivas contra manifestantes na capital do Mali, Bamako, acabariam por provocar cerca de 300 mortos. Corria o ano de 1991. Quatro dias depois, um golpe militar, liderado por Amadou Touré, depunha o presidente Moussa Traoré.
A 22 de Março, agora em 2012, um golpe militar depôs Amadou Touré.
Em comum entre os dois acontecimentos históricos há mais para além da data: então, como agora, o Norte do Mali era fustigado por rebeldes tuaregues, insatisfeitos com as condições de vida que levavam e dizendo-se discriminados pelo governo, no Sul.
Na década de 1990, o golpe liderado pelo General Touré abriu caminho a um governo eleito que negociou um acordo de paz com os rebeldes tuaregues. O próprio Touré candidatou-se à presidência da República, e foi eleito, em 2002. Agora, a apenas um mês de novas eleições presidenciais em que iria abandonar o cargo por ter completado o máximo de dois mandatos, Amadou Touré é apeado do poder por não ter conseguido lidar apropriadamente com nova revolta dos tuaregues. Sem um exército capaz de se contrapor militarmente aos revoltosos, sem solução política para o conflito, enfrentando descontentamento popular, Touré é vítima de um golpe de Estado.
Como ele fez, os militares revoltosos prometem entregar o poder em breve a civis. Desta vez, no entanto, só o tempo dirá se a promessa será cumprida.
Pelo menos quatro pessoas morreram nesse golpe de Estado, anunciado por militares que fecharam as fronteiras e decretaram recolher obrigatório nocturno.
Touré, de 63 anos, permanece em Bamaco, sendo provável que se encontre num quartel com os Boinas Vermelhas da sua guarda presidencial.
Tudo começou na tarde de quarta-feira, durante uma visita do Ministro da Defesa a quarteis, quando alguns soldados se amotinaram para exigir, segundo eles, mais fundos para a guerra contra os rebeldes do Norte.
O motim na cidade de Kita (a 15 km da capital), passou a Houlouba, onde está a presidência, depois à capital e a Gao (nordeste), onde está um comando anti-rebelião do exército.
Em dois dias, houve 40 feridos, entre eles "três ou quatro civis", a maioria atingidos por balas perdidas, segundo a Cruz Vermelha.
Na quinta-feira, às 4h locais, soldados uniformizados apareceram na televisão estatal, onde anunciaram o "fim do regime incompetente" do presidente Touré, suspenderam a Constituição, decretaram a dissolução de "todas as instituições", além de um toque de recolher por tempo indeterminado. As fronteiras do Mali foram fechadas "até nova ordem" e os funcionários convidados a retomar o trabalho na terça-feira, 27 de Março, sob pena de ser considerado "abandono de posição".
O Capitão Amadou Sanogo, é o líder dos revoltosos e chefe do agora criado Comité Nacional para a Recuperação da Democracia e do Restabelecimento do Estado.
O Partido Solidariedade Africana pela Democracia e Independência (Sadi), único da oposição representado na Assembleia Nacional, felicitou os golpistas e o seu presidente, Oumar Mariko, declarou estar pronto para fazer parte de um governo de união nacional.
A nível internacional, no entanto, a condenação foi unânime.
O anúncio da tomada do poder pelos militares no Mali provocou uma onda de condenações no exterior por parte da União Africana, que suspendeu o país da organização, da Comunidade Económica de Estados da África Ocidental, dos países vizinhos, dos Estados Unidos, da União Europeia, da ONU, e da Organização da Conferência Islâmica.
Como a França, antiga potência colonial, o Banco Mundial e o Banco Africano de Desenvolvimento, suspenderam toda a ajuda financeira ao país.
Em Paris, onde se encontra em visita oficial, o Ministro das Relações Exteriores angolano, Georges Chicoti, condenou de forma veemente o golpe. O governante considerou que, “hoje, em África, já está consagrado que, em princípio, não reconhecemos os regimes saídos de golpes de Estado. O problema é que há algumas correntes que tentaram contrariar esta perspetiva, que defendiam que é possível mudar-se regimes pela força. E isso tem criado alguma confusão”.
O ministro queniano das Relações Exteriores, Moses Wetangula, que se encontrava em Bamako para uma reunião da União Africana sobre segurança, ficou retido no país, por os aeroportos esterm fechados.
Numa análise da situação, no entanto, não se pode dizer que o golpe seja uma grande surpresa, visto que o descontentamento dos militares era público e expresso repetidamente ao longo dos últimos dois meses.
Aliás, já na edição de 18 de Fevereiro deste programa dedicámos um largo espaço a esse tema.
O que é facto é que há muito tempo que se sabia que a situação anárquica em que a Líbia caiu após o derrube do regime de Muhamar Kadaffi teria consequências perigosas, sobretudo porque não há controlo sobre as armas que o exército possuía.
A primeira evidência de que aquelas preocupações eram reais chegou do Mali, onde rebeldes tuaregues iniciaram uma revolta que tem por objectivo a criação de um Estado independente no Norte do país, a que chamam Azawad.
Estima-se que desde meados de Janeiro, quando começou a rebelião, haja mais de 200 mil pessoas afectadas.
Os conflitos no Norte do Mali, uma zona desértica, não são de agora. Desde o tempo colonial que os tuaregues combatem naquela região, logo no início do século XX contra as tropas francesas.
Depois da independência, em 1960, esta é a quarta vez que se registam confrontos. A última rebelião terminou apenas em 2008, mas os acordos alcançados acabaram por nunca ser cumpridos e os tuaregues voltaram a pegar em armas.
Agora, e aproveitando-se da situação em Bamako, onde os soldados estão ocupados a consolidar o poder, os rebeldes do Movimento Nacional de Libertação Azawad avançaram para Sul e tomaram várias cidades, sem enfrentar resistência.
De qualquer forma, a superioridade militar dos rebeldes liderados pelos tuaregues é inquestionável e é esse o principal motivo de insatisfação dos militares.
Anda esta semana a CEDEAO tinha apelado aos países vizinhos do Mali que apoiassem o exército com armamento para combater o Movimento Nacional de Libertação Azawad. A supremacia deste deriva directamente da situação na Líbia: em primeiro lugar porque os arsenais de armas estão sem controlo; em segundo porque os tuaregues combateram ao lado das forças de Kadaffi e agora regressam ao Mali sem trabalho, mas bem treinados no manuseamento das armas; em terceiro porque o próprio Kadaffi era um factor de estabilidade, mediando os conflitos e controlando as acções dos tuaregues.
A isto acresce a influência da al-Qaeda na região – embora os rebeldes garantam que não, há testemunhos de que entre os guerrilheiros estão homens de barbas compridas e com roupas ao estilo afegão.
Este conjunto de circunstâncias fez com que o avanço dos rebeldes tenha sido praticamente um passeio. No início dos ataques o exército maliano estava mal equipado e rapidamente se viu sem munições. Já os tuaregues possuíam armas pesadas instaladas em veículos todo-o-terreno e comunicações via satélite, pelo que o resultado foi um massacre.
Azawad é o nome que escolheram para a região onde se movimentam e que querem ver independente do Mali, área que está integrada em três províncias do Norte do país: Kidal, Gao e Timbuktu. Estima-se que o número de homens armados ronde o milhar.
Além dos regressados da Líbia, também desertores do exército e jovens activistas com domínio das novas tecnologias fazem parte do grupo. O comandante das tropas é Mohamed Ag Najim, um ex-coronel do exército líbio com muitos anos de carreira.
Outros homens armados, provenientes do movimento liderado por Ibrahim ag Bahanga, que morreu num acidente de carro no ano passado, também se juntaram ao MNLA. Também eles preparavam uma rebelião, tal como o movimento juvenil MNA, que surgiu em 2010 e que agora também se juntou aos revoltosos.
O optimismo do MNLA deriva não só da actual superioridade militar mas também do facto de o paradigma da manutenção das fronteiras africanas deixadas pelo colonialismo ter sido quebrado com a independência do Sudão do Sul.
A resposta do governo tem sido sobretudo através do recurso a meios aéreos, como helicópteros, mas sem sucesso, dadas as características desérticas do terreno, de que os tuaregues têm um profundo conhecimento. A piorar a situação para o lado governamental regista-se o facto de a maioria dos tuaregues que integravam o exército terem desertado.
Assim, o regime de Touré tentou controlar nas últimas semanas a insatisfação na frente de batalha. Recentemente dizia que nem sequer tinha uma perspectiva temporal para o fim do conflito, admitindo que pudesse arrastar-se durante meses ou anos.
O tenente Amadou Konaré, porta-voz dos amotinados, denunciou o "fracasso" do governo "para administrar a crise" no norte.
Esta é a situação quando fechamos a edição deste programa, mas há a possibilidade de haver um volte-face. Do interior do Mali, analistas apontam para a debilidade dos revoltosos, que estão mal equipados, são liderados por oficiais de baixa patente e não têm o apoio de todo o exército. Em contraste, os boinas-vermelhas que constituíam a guarda presidencial e que, tudo indica, estão ainda a proteger o presidente Amadou Touré, são uma força de elite bem armada e treinada. Por esta altura, portanto, o contra-golpe não é ainda um cenário que deva ser afastado.
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