20 de mar. de 2012

A incursão etíope na Eritreia

Forças etíopes invadiram na última quinta-feira a Eritreia e conduziram o que um porta-voz do governo da Etiópia, Shimeles Kemal, disse ter sido um "ataque de sucesso" contra postos militares eritreus.
Kemal disse que a Etiópia iniciou as hostilidades porque a Eritreia está a treinar "grupos subversivos" que conduzem ataques em território etíope.
Shimeles sustentou que o governo da Eritreia continuou a lançar ataques contra a Etiópia através de grupos que treina e que esses ataques continuam. Os recentes ataques contra turistas europeus foram uma das razões para retaliar, acrescentou.
De facto, em Janeiro, militantes atacaram turistas europeus de cinco nacionalidades que viajavam perto norte da Etiópia. Cinco turistas foram mortos e dois sequestrados. Os dois sequestrados, alemães, já foram soltos.
O porta-voz etíope garante que as medidas postas em prática não constituem uma confrontação militar direta entre os dois países.
Shimeles disse ainda ser improvável que a Eritreia lance um contra-ataque porque "não está em situação que permita isso".
Recorde-se que a Etiópia e a Eritreia travaram uma guerra, com as fronteiras como razão, entre 1998 e 2000, que deixou um rasto de 80 mil mortos.
As tensões voltaram a crescer entre os dois países da África Oriental nos últimos meses. Não foram fornecidos detalhes sobre baixas militares ou operações em curso.
Rashid Abdi, um analista regional que já trabalhou para o Grupo Internacional de Crises, disse que o ataque etíope representa "más notícias" que afectarão o conflito na Somália, onde tropas etíopes lutam contra militantes da rede extremista al-Shabab.
Disse ainda temer que o conflito entre a Etiópia e a Eritreia cresça e se transforme numa nova guerra, se a União Europeia ou os Estados Unidos não intervierem. Sustenta que mesmo que a Eritreia não lance um contra-ataque em retaliação, tentará prejudicar a Etiópia ao rearmar a al-Shabab na Somália. Abdi considera que mesmo sendo a Etiópia uma potência militar na África Oriental, não conseguirá lutar duas guerras ao mesmo tempo.
Há cerca de um ano, o primeiro-ministro da Etiópia, Meles Zenawi, disse ao Parlamento que o seu governo apoiaria activamente grupos da oposição na Eritreia para tentar derrubar o regime do país vizinho.
A Etiópia também culpa a Eritreia por ter maquinado vários ataques à bomba em Adis-Ababa, em Janeiro de 2011, durante a cimeira da União Africana.
Já a Eritreia não recebe auxílio estrangeiro e está sob várias sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) por violações contra os direitos humanos.
Relatórios da ONU afirmam que o país apoia a Al-Shabab, que possui ligações com a Al-Qaeda e acabou por pedir ajuda precisamente às Nações Unidas.
A Eritreia nega as acusações de apoio aos extremistas islâmicos da al-Shabab, apesar de, como se disse, estar sob sanções da ONU por causa disso.
Face à investida militar etíope desta semana contra campos de treino de supostos grupos terroristas que realizam atentados na Etiópia, a Eritreia pediu ajuda à ONU na sexta-feira. O Exército etíope entrou cerca de 15 quilómetros em solo da Eritreia e atacou as regiões de Ramid, Gelahbe e Gimbina, na fronteira nordeste da Etiópia.
Numa carta enviada ao Conselho de Segurança das Nações Unidas e divulgada ontem, o Executivo da Eritreia fez um apelo ao organismo para que "assuma suas responsabilidades legais e morais e adopte as medidas adequadas para interromper os actos de agressão contra a Eritreia".
"O povo e o governo da Eritreia não servirão de entretenimento nem cairão na armadilha de semelhantes artifícios falsos", afirmou o governo do país, ao alegar que os ataques só buscam desviar a atenção de importantes problemas nacionais na Etiópia.
O governo da Eritreia acrescentou que o ataque contra um posto militar foi feito para desviar a atenção da longa disputa de fronteira que os dois países têm há décadas.
O governo eritreu considera ser "manifestamente claro que o regime etíope não poderia desfechar um acto tão flagrante de agressão, com tanta audácia, sem a proteção dos Estados Unidos no Conselho de Segurança" da ONU, isto segundo o ministro das Relações Exteriores, Osman Saleh.
As acusações da Eritreia aos EUA de supostamente permitirem abusos da Etiópia, que está alinhada com Washington desde a década passada, são recorrentes, desde que os etíopes se tornaram aliados dos Estados Unidos na chamada guerra contra o terror.
Assim, o chanceler da Eritreia, em nome do governo, pediu ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, pela enésima vez, que arque com suas responsabilidades e tome medidas apropriadas para rectificar os actos de agressão contra os territórios soberanos da Eritreia e garanta a justiça e o respeito à lei.
Para sustentar o pedido lembrou que a Etiópia ataca território eritreu há dez anos e que o assalto da quinta-feira foi desfechado para encobrir o facto de que a Etiópia ocupa território da Eritreia, desde que os dois países travaram várias guerras desde a década de 1940, quando deixaram de ser colónias italianas. Essas guerras só terminaram em 1993, após 30 anos, quando a Eritreia obteve sua independência.
Uma leitura atenta da história mostra como em todas estas situações os interesses imperialistas, da era pós-colonial, estão na base destes conflitos. De facto, se hoje as potências ocidentais do hemisfério norte estão alinhadas com a Etiópia, na guerra de secessão estimularam e apoiaram a Eritreia, como forma de enfraquecer Adis Ababa, que na altura não alinhava com os interesses de Estados Unidos e antigas potências coloniais.
A Eritreia está localizada no Corno África. Faz fronteira, a Sul, com o Djibouti, a Etiópia, a Oeste, e com o Sudão a Noroeste. Toda a faixa Leste é banhada pelo Mar Vermelho.
Esta posição geográfica é de grande importância, pois localiza-se no estreito de Bab el Mandeb, ponto de passagem entre o Canal do Suez e o Oceano Índico.
O país foi criado pela Itália a de Janeiro de 1890, sendo ocupado pelos italianos até 1941. Posteriormente, a Eritreia ficou sob domínio britânico, entre 1941 e 1952, quando, na sequência da derrota italiana na II Guerra Mundial, a Organização das Nações Unidas concedeu autonomia ao país, que se federou com a Etiópia. Somente no dia 24 de março de 1993 a Eritreia obteve a sua independência, como se disse já após uma guerra que se prolongou por mais de 30 anos que devastou o país, deixando aproximadamente 100 mil mortos e 350 mil refugiados.
As actividades económicas no país são prejudicadas pela irregularidade das chuvas e pelas consequências dos vários anos de guerra.
A agricultura de subsistência é praticada por 80% da população. O sector industrial concentra-se na capital, Asmara, e baseia-se na fabricação de produtos alimentícios, têxteis e artigos de couro.
A população enfrenta vários problemas de ordem socio-económica – 68% dos habitantes são subnutridos; grande parcela da população é portadora do vírus HIV; o índice de analfabetismo é de 36% e a maioria da população vive com menos de 1 dólar e 25 cêntimos por dia, ou seja, abaixo da linha de pobreza.
Politicamente, a Eritreia é um regime de partido único, a Frente Popular para a Democracia e Justiça, e tem como presidente Isaias Afewerki, que ocupa o cargo desde 1993. Antes da independência, no entanto, já era o líder “de fecto” do país em luta.
Para 1997 estiveram marcadas eleições, que nunca chegaram a realizar-se.
Dadas as limitações às liberdades e o estado de conflito permanente em que se encontra, a Eritreia debate-se com sérios problemas de mão-de-obra, uma vez que muitos dos jovens que não estão a cumprir serviço militar optam por abandonar o país.
Já a Etiópia atravessa uma era de grande sucesso económico: tem-se destacado pelo elevado índice de crescimento ao longo dos últimos anos. O país teve uma média de crescimento de 8,4% entre 2001 e 2010, a quinta mais alta do Mundo, e as estimativas apontam para uma média de 8,1 até ao final desta década, colocando-o no terceiro lugar mundial, só ultrapassado por China e Índia.
Trata-se do mais antigo país independente de África, com a particularidade de nunca ter sido colonizado. O único período em que tropas estrangeiras tomaram o país foi durante a II Guerra Mundial, quando a Itália de Mussolini a ocupou.
O primeiro-ministro Meles Zenawi foi eleito em 2010 para um mandato de quatro anos.
Militarmente, além do conflito que mantém com a Eritreia, a Etiópia enviou soldados para a Somália, onde combatem contra a al-Shabab ao lado dos militares da força da União Africana. Na semana passada, no entanto, foi anunciada para Abril a retirada do contingente.
Como já fizemos referência, a Etiópia é um aliado estratégico dos Estados Unidos no Corno de África.

(A informação de actualidade neste artigo foi recolhida de agências de notícias)

Nenhum comentário: