9 de mar. de 2012

Outras coisas invisíveis além das crianças de Kony

Como agora o tema entrou na moda, aí vai um contributo. Tratei do assunto a 22 de Novembro do ano passado, o que deve ser tido em conta nas referências temporais.


O presidente ugandês Yoweri Museveni só não é conhecido do mundo porque não interessa aos Estados Unidos, uma vez que as práticas de governo, o respeito pelos direitos humanos, e os outros temas que fazem cair em desgraça deixam muito a desejar.
O critério para se ser bom ou mau, aos olhos dos Estados Unidos, depende apenas dos interesses militares e económicos.
Chama-se a isto real politic.
O Uganda é o tema principal do programa de hoje. Um país que agora chama a atenção porque tem no território militares norte-americanos para apoiar um governo corrupto numa guerra contra um messias com sessenta mulheres.
No Uganda a política mistura-se com religião e armas. Há dois actores principais neste processo: o presidente Yoweri Museveni e o líder do Exército de Resistência do Senhor, Joseph Kony.
O presidente Museveni já foi, em tempos, um guerrilheiro: liderava o Movimento Nacional de Resistência que se opunha às forças de Milton Obote, depois de este ter regressado ao poder quando derrubou Idi Amin, que por sua vez já tinha derrubado o mesmo Obote.
Assim, de 1971, quando Idi Amin sobe ao poder, até 1986, quando o actual presidente Museveni assumiu o cargo, estima-se que mais de meio milhão de pessoas tenham sido mortas pelo poder instituído.
Yoweri Museveni fez o que o Ocidente gosta: acordos com o Fundo Monetário Internacional, reformas no Estado adaptando-o ao estilo ocidental, abertura da economia ao capital estrangeiro e anunciou medidas no sentido das chamadas reformas democráticas.
Neste período que se descobrem grandes reservas de petróleo e gás no Uganda.
Hoje, bem visto pelo Ocidente, desculpam-lhe, por exemplo, ter mandado prender o líder da oposição esta semana, ter reprimido violentamente manifestações contra o aumento dos preços dos combustíveis e alimentos, e perdoam mesmo o facto de o Uganda ser um dos países onde o crescente tráfico de crianças se mantém impune. Só nos últimos quatro anos desapareceram mais de 9 mil crianças.
O facto de ter mudado a Constituição por forma a poder ser eleito tantas vezes quantas quiser também não conta.
O Uganda mandou tropas combater na República Democrática do Congo durante a guerra civil e ainda hoje está envolvido em acções de desestabilização.
Joseph Kony é um guerrilheiro acusado de crimes de guerra pelo Tribunal Penal Internacional – e assim ganhou o estatuto de terrorista. De facto, desde 1986, Kony é responsável pelo rapto de mais de 60 mil crianças que força a serem combatentes e responde também pelos cerca de dois milhões de deslocados pela guerra no país.
Mas Kony não quer propriamente libertar o Uganda do regime de Museveni – antes quer estabelecer um regime com base nos 10 mandamentos cristãos, ou seja, um estado teocrático, onde a religião se transforma em lei.
Compreende-se, portanto, que Joseph Kony é cristão, embora tenha uma prática que arrepia a maioria dos cristãos: este antigo menino de coro na igreja católica tem agora mais de 60 mulheres.
As semelhanças com o presidente Museveni surgem quando se fala em República Democrática do Congo. O Exército de Resistência do Senhor também se envolveu na guerra civil e continua a desestabilizar o nosso vizinho.
A diferença maior é que os Estados Unidos puseram Joseph Kony na lista negra e, como tal, pode ser combatido de todas as formas – até com o envio de soldados para o Uganda, o que aconteceu esta semana.
O envio das tropas ocorre após a aprovação, no ano passado, de leis contra o Exército de Resistência do Senhor e o seu líder.
Daqui a nada vamos dar mais pormenores sobre essa presença norte-americana no Uganda.
O presidente americano, Barack Obama, anunciou na semana passada o envio de 100 soldados para o Uganda. Um primeiro grupo já chegou ao terreno, a maior parte deverá chegar no próximo mês.
Numa comunicação ao Congresso norte-americano, o presidente Obama disse que as forças especiais "agirão como assessoras de tropas amigas, com o objectivo de eliminar do palco de batalha Joseph Kony e outros líderes do LRA". Apesar de lhes chamar assessores que vão dar “informações, conselhos e assistência”, Obama garantiu "as forças americanas estão equipadas para o combate”.
O presidente não esconde que estes soldados poderão alargar a sua acção a outros territórios onde o Exército de Resistência do Senhor actua, nomeadamente no Sudão do Sul, República Centro Africana e República Democrática do Congo.
Portanto, o objectivo anunciado é combater Joseph Kony e os seus guerrilheiros, embora nenhum observador da política internacional acredite na bondade norte-americana sem a relacionar com interesses estratégicos – económicos e militares.
Os interesses económicos prendem-se sobretudo com a existência, como já referimos, de importantes reservas de petróleo no Uganda. Os militares com o desejo norte-americano de ter uma base militar em solo africano.
As razões económicas foram determinantes na decisão dos Estados Unidos mandarem tropas para o Uganda. Não que os norte-americanos assumam isso. Como já dissemos, os militares são chamados de assessores. Mas quem tem memória sabe que também para o Vietname os primeiros soldados enviados eram chamados de assessores.
Então por que razão enviaram as tropas? Por razões económicas e interesses militares, como já se disse. Como isto não pode ser dito assim, e como é hábito, diz-se que as razões são humanitárias – e aí a existência do Exército de Resistência do Senhor é muito conveniente.
A presença chinesa na região não agrada ao Ocidente, como se sabe. A China, para sustentar o crescimento e industrialização ao ritmo a que tem andado, necessita de minerais e combustíveis que tem vindo buscar a África. No caso do Uganda, os Estados Unidos não querem perder a corrida, outra vez.
Nesta competição, a China está à frente. Índia, Austrália, África do Sul e Rússia arrancaram também da primeira linha. A Rússia, por exemplo, acaba de criar uma nova refinaria de ouro em Kampala.
A Heritage Oil, uma companhia de prospecção de petróleo, diz que o Uganda tem reservas de petróleo em quantidades consideráveis – milhares de milhões de barris. A maior descoberta on shore, isto é, em terra, no continente africano. As riquezas minerais também são apetecíveis.
O Ocidente quer garantir que todos este petróleo não vai para a China nem para mais lado nenhum a não ser Estados Unidos e Europa.
Sabendo-se que o Uganda não tem mar, terá que ser construído, pelo menos, um oleoduto. Há já planos para a construção de um pipeline com mil e 200 quilómetros ligando Kampala, no Uganda, à costa do Quénia. O valor do investimento é de mil e 500 milhões de dólares.
Como entretanto o Sudão do Sul se tornou independente, num outro processo a que se chamou de libertação, há também intenções de construir um gasoduto nessa direcção.
No aspecto militar, há muito tempo que os Estados Unidos querem ter uma base militar na África Central, como tem na Europa Central.
Neste momento o Uganda tem todas as condições para acolher o equipamento militar.
A lógica é simples: os Estados Unidos têm no terreno militares para combater terroristas; isso leva à necessidade de uma pequena base militar; à medida que terroristas forem presos, há necessidade de os ter numa prisão: assim já chegámos a qualquer coisa parecido com Guantanamo.
Depois haverá os já referidos gasoduto e oleoduto – para o Quénia e para o Sudão do Sul. Haverá, obviamente, a necessidade de justificar a segurança destas estruturas. Logo, mais tropas serão necessárias e a base militar ganhará outras proporções.
Tudo isto será possível sem grandes embaraços, uma vez que o governo de Kampala mantém um registo de repressão considerável, como acordo dos Estados Unidos, que ainda recentemente enviaram 45 milhões de dólares em equipamento militar para o Uganda.
O cenário começa, então a ficar completo e as habituais razões humanitárias que justificam o envio de tropas ocidentais para combater noutros países ganham outros ângulos.
O Uganda tem, pois, todas as condições para, a coberto de uma intervenção inicialmente destinada a combater uns lunáticos criminosos que cometem atrocidades em nome de Cristo, passo a passo, tornar-se o local onde os Estados Unidos irão instalar a tão desejada base militar que irá constituir-se no Comando Africano do Pentágono em solo continental.
São de esperar movimentações dos países vizinhos e de organizações internacionais como a União Africana nos próximos tempos.

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